segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A amizade pelo ralo: cuidado com a inveja!

Certa vez um amigo disse uma frase interessante: “tirante as doenças graves e as incuráveis, todo e qualquer problema, tem sempre um cunho financeiro”. Carregada de sacarmos e ironias a afirmativa se adapta com perfeição a grande maioria dos problemas humanos, mas peca, com bom humor, diante de outros. Reduzir, por exemplo, a amizade, a admiração, o respeito e o amor a uma relação de cifrões, só pode ser entendida como a mais pura brincadeira, dado que elas simplesmente não existem dessa forma: ou se admira e se gosta e se aceita alguém como ela é, com suas qualidades e defeitos, ou se tem pelo outro um puro interesse, na maioria das vezes, financeiro.
Pode ser também, que uma relação não se estabeleça com base nesse mesquinho sentimento, pois se de alguma forma, subliminar ou não, as diferenças culturais, sociais e econômicas se sobrepuserem aos nobres valores, a relação também deixará de ser sincera para ser falsa, o que causará magoas e decepções do mesmo jeito. E seja lá em qual for a direção!
Na grande maioria das vezes, o estabelecimento de diferenças e distanciamentos com base nesses aspectos tem, infelizmente, o tal cunho financeiro.
A escolha de quem pode ou não trilhar ao nosso lado, é absolutamente pessoal, porém, muitas vezes outras pessoas cruzam os nossos caminhos e a tolerância dita o comportamento. É a tolerância, a senha para consolidar qualquer tipo de relacionamento, aqui considerada do casual até o mais íntimo. Se aquela esporádica, decorrente da própria rotina individual, de alguma forma nos faz bem, ela deve ser cultivada mesmo que existam diferenças, não esquecendo, porém, que jamais será uma árvore frondosa, será sempre um bonsai.
A amizade íntima pressupõe uma tolerância muito acima da outra e as divergências culturais, sociais e econômicas são administradas pela média aritmética simples: se o resultado estiver dentro daquilo que se entende como prazeroso, eis um bom relacionamento. Tudo porque a vida de cada um é escrita por si e na imensa maioria das vezes, ninguém tem nada haver com os problemas, frustrações, recalques e alucinações dos outros: ou se impõe restrições e se refloresta o mundo com as arvorezinhas japonesas, ou faz da aceitação, da admiração e do respeito às sementes da superação da vida, o que é maravilhoso.
Seja lá como for, qualquer tipo de sentimento que busque o distanciamento é perigoso, exceto, é claro, se por trás dele estiver um justo sentido de proteção ou defesa. Desses sentimentos, a inveja talvez seja o que mais abale qualquer relação, porque ela jamais aproxima de fato, força uma condição insustentável e corrói lentamente, como um ácido, as teias delicadas da amizade. E, infelizmente, a inveja é quase sinônima do aspecto econômico e não há média que resista aos seus dissabores. Os efeitos colaterais desse pecado capital são cruéis ao ponto de estabelecer falsas diferenças culturais e sociais, que com o passar do tempo ganham corpo e vida própria, ficando outras verdades, reduzindo a nada todo o passado comum. Também são perniciosos porque destroem o respeito e a admiração do outro, do invejado, tornando todo o conteúdo cultural do invejoso, um mero acervo de uma biblioteca inatingível e desnecessária.
A opção por viver de determinada maneira não torna ninguém melhor ou pior do que o outro nem pode pautar uma amizade, pois é reduzir dois mundos distintos para um só, o que seria puro egoísmo. Isso também não dá o direito de entender o outro, que lhe é contrário, como marginal porque abre um justo espaço do entendimento reverso. O egoísmo é, assim, ruim às relações humanas e só pode ser entendido como um sentimento de autodefesa que tenta, no fundo, escamotear visíveis diferenças impostas unilateralmente, normalmente em relação aos cifrões.
Por isso, uma amizade leva muito tempo para se estabelecer e segundos para descer pelo ralo. As diferenças precisam ser aceitas e compreendidas para que haja uma relação digna e respeitosa, quando, então, ninguém será mais do que o outro na plenitude, o será apenas pontualmente.
Entendo, por fim, que em uma relação decente entre homens de bem e de caráter deve haver um sonho comum: o de tentar, cada um a seu modo, fazer do mundo um local melhor para se viver.

bAl

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

De carro até a Isla de Margarita: por cinqüenta centavos a mais...

Apesar de ser um dos maiores produtores de petróleo, a Venezuela não tem capacidade para refinar o seu ouro negro, tampouco tem condições de atender a sua própria demanda interna por diesel e gasolina. São normais as imensas filas nos postos de combustível que, via de regra, fecham a noite, o que não altera o gosto dos venezuelanos pelos motores V6 e V8, sabidamente beberrões. Até mesmo pequenos ônibus e caminhões são movidos por esses motores que, diga-se de passagem, produzem um som imponente, muito gostoso de ouvir.
Mas isso tudo eu só aprendi depois!
Parei para almoçar em Upata sentado de frente para um posto de combustível. Meu anjo da guarda é dos bons, porém conta demais comigo, apenas sinaliza, não fala. Como o Pajerão tinha mais de meio tanque, deixei para abastecer adiante na certeza (baré) de que teriam outros postos.
As cidades foram passando, passando, passando... uma atrás da outra e nada de posto, pelo menos no eixo da estrada. Empolgado com a pista sem buracos, mantinha o motor do Pajerão roncando a três mil rotações por minuto, condicionador de ar ligado, até que entrei num reserva indígena, sem saber que existia um negócio desses no meio da Venezuela.
O ponteiro de combustível foi baixando, baixando, baixando... e eu, então, me dei conta de como tinha sido imprudente. Senti-me o próprio Garcez, aquele piloto da Varig que pousou tranquilamente no meio da floresta amazônica com os tanques repletos de vento. Tal qual o piloto que avisou a tripulação para se preparar para um pouso forçado, eu mostrei à Shirley a situação do ponteiro, mais brochado do que aquilo de velho. Senhor da situação, pedi para não alarmar as meninas que tudo daria certo, mas não deu não!
Sem poder retornar, continuei absolutamente tenso na direção norte até que a luz amarela acendeu. Pane seca no meio do nada, ou melhor, pane seca no trecho mais perigoso de toda a viagem, qual seja, entre El Tigre e Cantaura. Eram quase dezoito horas e o sol se preparando para iluminar o outro lado do mundo, me deixando no escuro contemplando o nosso ocaso.
O outro carro que nos acompanhava era movido a gasolina e sem poder fazer nada, parou atrás. Houve uma rápida troca de tripulação com a Shirley seguindo com as meninas no outro carro e eu fiquei com a Tubinho e com a tia Joaquina, que vinham alegres no Siena. Olhei no mapa e pela quilometragem achei que ela iria andar uns cem quilômetros, cinqüenta em cada direção.
Agora a história também passa a ter duas direções a de quem ficou e a dos que foram.
A de quem ficou começou muito mal: fumei o ultimo cigarro, contemplando a paisagem! De um lado, um serrado lindo de morrer com serras ao longe; do outro, onde o sol de punha, um serrado lindo de morrer com serras ao longe. Não vi nada vivo, nem passarinhos.
A Joaquina, uma senhora de mais de setenta anos, fez sinal pedindo ajuda até que parou um caminhão. O motorista perguntou o que tinha ocorrido e eu disse, em espanhol, que havia ficado sem diesel. Diesel? O que é isso? Indagou o gentil homem. Meu Deus! Como é que se chama diesel em espanhol? Indaguei, eu. Ele sugeriu: gasoil? Eu topei. Pediu uma mangueira e eu disse “yo no tengo!”, pediu uma “botella” e eu disse que também não tinha, simplesmente, porque  não sabia o que era. Ele foi embora.
Em seguida parou outro e eu fui logo dizendo: “yo no tengo gasoil, nim maguera, nim botella”. Mas aquele motorista era dos bons além de poliglota: viu uma embalagem dessas de óleo de motor de carro, do outro lado da estrada e disse “botella”. Desconectou uma mangueira do seu tanque, encheu quatro vezes a tal “botella” e me deu vinte litros de “gasoil”. Quando ele foi re-conectar a mangueira, a rosca não pegou mais. Tentou várias vezes até que disse, “adelante, aqui es muy peligroso”. Dei um dinheiro para ele e fomos embora na escuridão da noite, depois que quase uma hora parados.
Voltei dando jogo de luz para todos os carros que passavam no sentido contrário, tentando identificar a Shirley sob péssima condição de visibilidade.
Os que foram também sofreram, inclusive do mesmo mal da luz da gasolina. Pouco antes de um posto, a luz da reserva acendeu e eles abasteceram. Mas lá não vendia “gasoil”. Seguiram as orientações do pessoal do posto até que chegaram numa casa que vendia combustível clandestinamente, dado que os postos fecham a noite.
Entraram na casa da moradora, chorando e pedindo ajuda. A Ana Vitória, minha filha mais velha, manteve a calma e conseguiu que lhe fosse dado vinte litros de diesel, envasados em embalagens “pet”. Aquelas pessoas foram muito gentis, tanto que inicialmente recusaram qualquer tipo de pagamento, mas depois cederam por insistência da Titole.
Retomaram o caminho de volta.
De nosso lado, ficamos o tempo todo chamando pelo rádio mas nada de atendimento. Continuei adiante, dando sinal para todo mundo, até que a Shirley passou... mas não me viu e nem respondeu aos chamados radiofônicos.
Consegui um lugar para retornar e segui no seu encalço, sempre chamando pelo rádio, até que ouvimos uma resposta. Paramos, levei as pets para o Pajerão, remontamos as tripulações e seguimos. No primeiro bar, parei para comprar cigarro e duas cervejas.
Achamos um hotel e dormimos, exaustos.
O pior de tudo é dizer que para encher o tanque do Pajerão com “gasoil” se gasta menos de dois bolivares, o que equivale a menos de cinqüenta centavos de real.

By bAl


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

De carro até a Isla de Margarita: entre carimbos e fuzis

Sob vários aspectos, viajar de carro é uma aventura sujeita á chuvas e trovoadas no decorrer do percurso, portanto, quem se dispõe a isso sabe muito bem que os imprevistos fazem parte da viagem e são justamente eles que a tornam interessante. Não troco por nada colocar o meu carro na estrada.
Mas ir de carro até a Isla de Margarita é muito mais do que passar, digamos assim, por problemas atmosféricos; na verdade, é vencer a dúvida cruel e interminável que o Gobierno Revolucionário Bolivariano de Venezuela tem quanto a entrada de brasileiros em seu território. Essa dúvida, diga-se de passagem, há mais de uma década que persegue psicologicamente a Guarda Nacional, órgão responsável pela segurança política e militar de Hugo Chaves.
Os abusos são muitos e de todas as ordens. Não titubeio em afirmar que não existe brasileiro que tenha trafegado pela Venezuela que não tenha sido alvo de ameaças, de truculências e, fundamentalmente, de tentativas, consumadas ou não, de subornos.
As naturais e compreensíveis tratativas burocráticas para entrada no território venezuelano, se transformam em si na primeira aventura. E que baita aventura.
É certo que vários brasileiros querem entrar de qualquer jeito, o que faz do ingresso um jogo de paciência entre o interessado e ele mesmo, mas o trâmite burocrático leva qualquer cristão à exaustão. Em uma sala os passaportes são carimbados e os dados transcritos, em letras ininteligíveis para um livro: tudo é anotado, a viagem toda e em todo lugar existem livros e carimbos azuis e vermelhos. Simples burocracia que os militares sempre adoraram lá e cá e acolá.
Depois o carro precisa ser liberado, o que é, mais uma vez, bastante compreensível. Entendo normal que o proprietário esteja presente, afinal a quem cobrar em caso de acidentes e outros danos? Mas exigir que o proprietário seja o motorista ultrapassa o limite do bom senso. A burocracia é tão grande que se não existem leis oficiais, os aduaneiros concebem uma oportunamente, querendo, na verdade, propina. Inicialmente exigem, por exemplo, que seja apresentada uma autorização passada em cartório e com selo brasileiro, mas depois a conversa muda para um cartório venezuelano. Com a documentação verificada, por um fiscal que faz questão de ensinar que ele faz parte do gobierno, o viajante tem que conseguir o Permisso do carro, documento mais importante que o próprio passaporte.
Depois de duas horas, mais ou menos, o Permisso é liberado e será infinitamente exigido e carimbado durante a viagem. O tal papel é tão importante que deve ser devolvido na volta com um número par de carimbos no verso, ou seja, se na ida o viajante conquistar três carimbos, na volta ele deve rezar um rosário para consegui-los novamente. Não é fácil, mas não há com que se preocupar se um amigo tiver mais carimbos, o que vale é conseguir tantos na ida e o mesmo tanto na volta. Até torna a viagem menos monótona e com os quilômetros passando, até causa uma animação dentro do carro: é aqui... não é na outra...
Enfim, a estrada sem buracos e nem sempre bem sinalizada.
A Gran Saban é deslumbrante, linda e encantadora; lá tem a mão de Deus em momentos da mais sagrada inspiração.
Mas lá tem a mão de Hugo Chaves e sua Guarda Nacional Revolucionária Bolivariana de Venezuela, a qual é devotada toda honra e toda glória, sempre armada com seus revolveres e metralhadoras.
Dezenas de postos policiais comandados por aspirantes a soldados tem plenos poderes sobre qualquer um. Dependendo do humor ou do sol ou da fome ou de sei lá o quê, o comandante pode dar uma ordem de parar todo mundo para vistoriar o carro ou, simplesmente, ver o passaporte ou o tal permisso ou a carteira de vacinação ou tudo junto e misturado, se lhe convier.
A arrogância e a prepotência são quase que normais; eles não encaram ninguém, têm o olhar dissimulado dos corruptos.
Em outras vezes, tais quais os oportunistas, os soldados dão a entender que o motorista pare o carro e quando isso acontece, eles ordenam “adelante!” depois de analisar que não há motivo aparente para uma propina.
Na saída de El Tigre os sobreviventes passam pelo o ápice do pânico e do terror: a Guarda Nacional instalou vários contêineres sem janelas e com ar refrigerado, para onde são levados os brasileiros que são submetidos a um avassalador conjunto de ameaças que vão do retorno, da prisão, do pagamento de multas milionárias e etc... caso não seja dado uma propina que varia de três a cinco mil bolivares, cerca de mil reais. Na viagem que fiz, eu conheci cinco famílias que tinham passado por isso e a minha só não foi para o contêiner porque eu não deixei. No meu caso, tudo porque a data de nascimento na carteira de vacinação de um dos passageiros do outro carro, era a mesma da emissão do documento. Como a carteira foi emitida em 2007, o passageiro deveria ser uma criança com quase quatro anos apesar de o passaporte mostrar que ele tinha vinte e cinco anos.
Durante as tratativas deste problema, eu fiquei afastado até o momento que ele ameaçou a minha esposa, quando, então, literalmente botei o dedo na cara do soldado ordenando que fosse chamado o seu comandante para irmos para a Embaixada brasileira, que eu até hoje não sei se existe em El Tigre!
Um soldado frouxo e covarde se desnudou na minha frente; pegou trinta bolivares e devolveu os passaportes. Na saída pediu bombons Garoto e eu disse que em bom espanhol: para usted no tiene Garoto, no tiene bombon, no tiene nada... e pensei no tiene porra ninguma.
Por outro lado, há de ser louvada a preocupação da Guarda Nacional com a segurança dos viajantes brasileiros: corretamente eles exigem o uso do cinto de segurança, senão... Apesar de não ter nada haver com isso, eu achei estranho o fato deles não se preocuparem com os motoristas e passageiros venezuelanos que trafegam sem cinto, sem faróis, sem lanternas e, às vezes, sem porta, sem pára-brisas... num monte de carros velhos. Será que a  Guardia Nacional Revolucionária Bolivariana de Venezuela não gosta do seus patrícios?
Para entrar no ferry boat que vai à ilha, a burocracia venezuelana deixa qualquer outra com inveja. O boleto tem quatro partes da qual uma é do passageiro e as outras três, são destacadas por pessoas diferentes em um espaço de dez metros! Ou seja, anda-se um pouco e... clique, lá se foi uma parte; três metros depois outro clique e mais adiante o clique derradeiro. Quando se vai, as taxas são pagas por fora, mas quando se retorna os impostos já estão inclusos no valor. Por quê? A meu ver não há explicação minimamente razoável para tal divergência.
Por conta desses fatos, entendo que o Governo Brasileiro deve tentar solucionar esses impasses junto ao Governo Venezuelano para, das duas uma, ou deixar passar em paz ou fechar a fronteira de vez e apertar os venezuelanos que vão a Boa Vista, muitos deles contrabandistas de ouro.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O título de Coronel

Nos anos finais do século passado, para ser bem chique no palavreado, a minha família passou a morar lá pelas bandas do conjunto Tiradentes, bem ali na ilharga da Zona Leste de Manaus. Construído nos anos setenta, o Tiradentes abrigava um monte de oficiais da Polícia Militar do Amazonas o que, infelizmente, não impedia a visita daqueles ilustres desconhecidos que gostam de se apropriar dos bens alheios. Mas sabe-se lá por que, meu pai acabou acunhado de Coronel pelos vizinhos mais chegados, que deixa estar, amigo leitor, só um tinha sido militar e era Coronel de fato.
Coronel de verdade ou não, meu pai andava pelo Coroado sempre saudado desta forma pelos feirantes, pedreiros, encanadores, passadeiras, vigias, jardineiros e tudo mais de gente que luta para sobreviver nesse bairro próximo, mas tão distante da oficialidade do Tiradentes.
Os vizinhos da rua das Papoulas gostavam de se reunir aos domingos no quintal asfaltado que passava, coincidentemente, na frente das suas casas. Meu pai, cardíaco do dedão do pé ao mais longínquo fio dos cabelos, por lá maneirava nos churrascos e nos iaçás e, que ninguém nos ouça, nas tartarugadas. Como se vê, seguia religiosamente o preceito médico de não abusar no sal e na gordura e noutros detalhes menores.
Clerical, papai seguia religiosamente o que lhe mandava...  a boca e os olhos, sem medo algum de depois jurar que não tinha abusado.
Mas abusar de quê? Lascado, com três infartos e o mesmo número de cirurgias e com dez vezes isso de pontes de safena, mamária e tudo de veias e artérias e sei lá o quê, instalado no coração, que cristão, temente a Deus e com quase setenta anos de idade se preocuparia com tantos detalhes menores?
Não deu outra. Lascado desse jeito teve uma recaída, quase viu a Luz celestial e lá no fim do túnel recebeu um marca-passo e reviveu. O homem remoçou tanto que pouca gente acreditava que, diante de si, estava um “caboco” que tinha um pé aqui e o resto do corpo lá do lado da eternidade.
Mas Deus é danado mesmo. Absolutamente incrédulo diante de tão teimoso vivente, que apostava tudo na vida, deixou o tempo correr, mas um dia fez valer o seu poder e bateu o martelo. Sou capaz de jurar que Ele deu essa martelada, posto de pé e bem sisudo e impaciente com seu abusado discípulo.
Com a morte do papai sobraram as lembranças e as heranças, sendo uma grande e a outra pequena. Com a família unida e em paz, dividimos os bens, somamos as forças, multiplicamos a fé em Deus e seguimos adiante certos de que tudo estava bem resolvido.
Mas, pouco tempo depois... Surpresa! Íamos esquecendo o título de Coronel que andava assim, sem dono dentro da família, se não fosse meu sobrinho, que contava com nove anos. Ciente das leis nobiliárquicas, o pequeno entendeu que o título caberia a mim por ser o primogênito; caso eu não quisesse seria do meu irmão e depois ao mais velho dos netos e por aí afora.
Ora, ele não era o mais velho dos netos. Cruel destino! Na linha de sucessão havia justamente o Lucas, seu irmão, que precisava declinar de tamanha honraria para que tudo desse certo na lógica evidente e nada sutil, do Leonardo Júnior.
Sinceramente, nem eu nem o meu irmão tínhamos pensado em herdar tão honroso título. O Lucas não se manifestou e eu entendi que nada seria mais justo do que outorgar ao Leonardo Júnior o título de Coronel do Tiradentes, o que fiz de imediato, impondo a obrigação de mantê-lo com a mesma alegria de seu avô.
A única coisa que eu lamento é não ter podido transmitir esta comenda com a Banda da Polícia Militar tocando aqueles dobrados e a tropa desfilando em homenagem aos Coronéis Leonardo e Balark.

bY bAl

domingo, 21 de novembro de 2010

Chega de saudade!

Depois de 50 anos, a Bossa Nova continua viva, apaixonada e apaixonante, ainda deixando nos corações uma maravilhosa saudade, tingida por uma tal batida que até hoje poucos conseguem compreende-la com a devida clareza. Pouco importa, a arte não exige que a compreendamos, ela simplesmente espera que sejamos emocional ou comportamentalmente afetados diante ou distante dela.
A musica “Chega de Saudade” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes é um exemplo disso: é uma canção de amor que, indistintamente, foi e é e continuará sendo utilizada por todos os corações, não importando que o gênero da pessoa que canta, na letra original, seja masculino.
É de se ousar dizer que não existe brasileiro que não a conheça e que não saiba cantarolar pelos menos os seus versos iniciais. Basta um violão tocar os primeiros acordes que nos surge da alma e não da memória, os pedidos para que a Tristeza, a mensageira da canção, vá até o amor perdido e lhe diga que “sem [ele] não pode ser”. E como a dor da saudade é grande, a Tristeza, de antemão, está autorizada a clamar até aos céus, se for necessário.
Depois disso a Tristeza é uma ouvinte de desabafos sinceros, que ocorrem, diga-se de passagem, em apenas um momento de toda a canção. O que canta se despe de tudo e reconhece que a melancolia em que se encontra vem da ausência do amor perdido e por isso “não há paz” e “não há beleza” em seu viver. No fundo do poço da desilusão, reconhece, humilde e insistentemente, que aquilo tudo “não sai”, “não sai” e “não sai”.
Para ir da realidade à ilusão, Tom Jobim e Vinícius bastaram-se em um clássico acorde, que interrompe com o passado de tristeza para fazer nascer um universo de promessas apaixonadas. E tome promessas e acordes lindamente melodiosos.
Os versos que se seguem foram concebidos para reconquistar o grande amor. Usando uma lógica de exageros que só cabe nos corações apaixonados, duas comparações inesquecíveis dão o tom das promessas: a primeira, a dos peixinhos e beijinhos e a outra, dos braços e abraços. Como condiz à alegria do amor, ainda que este se encontre do campo das suposições, o que entrelaça tudo isso é um desejo ardente, delicadamente transformado na promessa de um “carinho sem ter fim”.
Talvez empolgado, o que canta, aquele que pediu à Tristeza que fosse até a amada e lhe dissesse de todo o seu amor, de repente parece esquecer toda a gentileza e se deixa levar por um certo arroubo emocional.
Se “Chega de Saudade” não atingisse os corações, como o faz, o tal arroubo não daria sentido à música.
Nos dois últimos versos, há uma inversão da pessoa com que se fala, que desde o início foi a Tristeza, que grafo como se fosse substantiva por ser dotada de certos poderes humanos, para ser a própria amada. E isso é tão imperceptível que não se nota o erro gramatical nesses versos: “Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim” e “Não quero mais esse negócio de você longe de mim...”.  Você, quem? Pela interlocução teria que ser a Tristeza, pois é com ela o diálogo. Mas isso não teria sentido e nem seria justo com os sentimentos de quem canta, mesmo que o faça errado gramaticalmente.
O que importa é que a canção diz o que quer dizer e todo mundo compreende. O que deixa saudade é que não se criam mais outras batidas e promessas e arroubos; o mundo parece estar do tamanho de uma boquinha de garrafa.

bY bAl