Certa vez um amigo disse uma frase interessante: “tirante as doenças graves e as incuráveis, todo e qualquer problema, tem sempre um cunho financeiro”. Carregada de sacarmos e ironias a afirmativa se adapta com perfeição a grande maioria dos problemas humanos, mas peca, com bom humor, diante de outros. Reduzir, por exemplo, a amizade, a admiração, o respeito e o amor a uma relação de cifrões, só pode ser entendida como a mais pura brincadeira, dado que elas simplesmente não existem dessa forma: ou se admira e se gosta e se aceita alguém como ela é, com suas qualidades e defeitos, ou se tem pelo outro um puro interesse, na maioria das vezes, financeiro.
Pode ser também, que uma relação não se estabeleça com base nesse mesquinho sentimento, pois se de alguma forma, subliminar ou não, as diferenças culturais, sociais e econômicas se sobrepuserem aos nobres valores, a relação também deixará de ser sincera para ser falsa, o que causará magoas e decepções do mesmo jeito. E seja lá em qual for a direção!
Na grande maioria das vezes, o estabelecimento de diferenças e distanciamentos com base nesses aspectos tem, infelizmente, o tal cunho financeiro.
A escolha de quem pode ou não trilhar ao nosso lado, é absolutamente pessoal, porém, muitas vezes outras pessoas cruzam os nossos caminhos e a tolerância dita o comportamento. É a tolerância, a senha para consolidar qualquer tipo de relacionamento, aqui considerada do casual até o mais íntimo. Se aquela esporádica, decorrente da própria rotina individual, de alguma forma nos faz bem, ela deve ser cultivada mesmo que existam diferenças, não esquecendo, porém, que jamais será uma árvore frondosa, será sempre um bonsai.
A amizade íntima pressupõe uma tolerância muito acima da outra e as divergências culturais, sociais e econômicas são administradas pela média aritmética simples: se o resultado estiver dentro daquilo que se entende como prazeroso, eis um bom relacionamento. Tudo porque a vida de cada um é escrita por si e na imensa maioria das vezes, ninguém tem nada haver com os problemas, frustrações, recalques e alucinações dos outros: ou se impõe restrições e se refloresta o mundo com as arvorezinhas japonesas, ou faz da aceitação, da admiração e do respeito às sementes da superação da vida, o que é maravilhoso.
Seja lá como for, qualquer tipo de sentimento que busque o distanciamento é perigoso, exceto, é claro, se por trás dele estiver um justo sentido de proteção ou defesa. Desses sentimentos, a inveja talvez seja o que mais abale qualquer relação, porque ela jamais aproxima de fato, força uma condição insustentável e corrói lentamente, como um ácido, as teias delicadas da amizade. E, infelizmente, a inveja é quase sinônima do aspecto econômico e não há média que resista aos seus dissabores. Os efeitos colaterais desse pecado capital são cruéis ao ponto de estabelecer falsas diferenças culturais e sociais, que com o passar do tempo ganham corpo e vida própria, ficando outras verdades, reduzindo a nada todo o passado comum. Também são perniciosos porque destroem o respeito e a admiração do outro, do invejado, tornando todo o conteúdo cultural do invejoso, um mero acervo de uma biblioteca inatingível e desnecessária.
A opção por viver de determinada maneira não torna ninguém melhor ou pior do que o outro nem pode pautar uma amizade, pois é reduzir dois mundos distintos para um só, o que seria puro egoísmo. Isso também não dá o direito de entender o outro, que lhe é contrário, como marginal porque abre um justo espaço do entendimento reverso. O egoísmo é, assim, ruim às relações humanas e só pode ser entendido como um sentimento de autodefesa que tenta, no fundo, escamotear visíveis diferenças impostas unilateralmente, normalmente em relação aos cifrões.
Por isso, uma amizade leva muito tempo para se estabelecer e segundos para descer pelo ralo. As diferenças precisam ser aceitas e compreendidas para que haja uma relação digna e respeitosa, quando, então, ninguém será mais do que o outro na plenitude, o será apenas pontualmente.
Entendo, por fim, que em uma relação decente entre homens de bem e de caráter deve haver um sonho comum: o de tentar, cada um a seu modo, fazer do mundo um local melhor para se viver.
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