Nos anos finais do século passado, para ser bem chique no palavreado, a minha família passou a morar lá pelas bandas do conjunto Tiradentes, bem ali na ilharga da Zona Leste de Manaus. Construído nos anos setenta, o Tiradentes abrigava um monte de oficiais da Polícia Militar do Amazonas o que, infelizmente, não impedia a visita daqueles ilustres desconhecidos que gostam de se apropriar dos bens alheios. Mas sabe-se lá por que, meu pai acabou acunhado de Coronel pelos vizinhos mais chegados, que deixa estar, amigo leitor, só um tinha sido militar e era Coronel de fato.
Coronel de verdade ou não, meu pai andava pelo Coroado sempre saudado desta forma pelos feirantes, pedreiros, encanadores, passadeiras, vigias, jardineiros e tudo mais de gente que luta para sobreviver nesse bairro próximo, mas tão distante da oficialidade do Tiradentes.
Os vizinhos da rua das Papoulas gostavam de se reunir aos domingos no quintal asfaltado que passava, coincidentemente, na frente das suas casas. Meu pai, cardíaco do dedão do pé ao mais longínquo fio dos cabelos, por lá maneirava nos churrascos e nos iaçás e, que ninguém nos ouça, nas tartarugadas. Como se vê, seguia religiosamente o preceito médico de não abusar no sal e na gordura e noutros detalhes menores.
Clerical, papai seguia religiosamente o que lhe mandava... a boca e os olhos, sem medo algum de depois jurar que não tinha abusado.
Mas abusar de quê? Lascado, com três infartos e o mesmo número de cirurgias e com dez vezes isso de pontes de safena, mamária e tudo de veias e artérias e sei lá o quê, instalado no coração, que cristão, temente a Deus e com quase setenta anos de idade se preocuparia com tantos detalhes menores?
Não deu outra. Lascado desse jeito teve uma recaída, quase viu a Luz celestial e lá no fim do túnel recebeu um marca-passo e reviveu. O homem remoçou tanto que pouca gente acreditava que, diante de si, estava um “caboco” que tinha um pé aqui e o resto do corpo lá do lado da eternidade.
Mas Deus é danado mesmo. Absolutamente incrédulo diante de tão teimoso vivente, que apostava tudo na vida, deixou o tempo correr, mas um dia fez valer o seu poder e bateu o martelo. Sou capaz de jurar que Ele deu essa martelada, posto de pé e bem sisudo e impaciente com seu abusado discípulo.
Com a morte do papai sobraram as lembranças e as heranças, sendo uma grande e a outra pequena. Com a família unida e em paz, dividimos os bens, somamos as forças, multiplicamos a fé em Deus e seguimos adiante certos de que tudo estava bem resolvido.
Mas, pouco tempo depois... Surpresa! Íamos esquecendo o título de Coronel que andava assim, sem dono dentro da família, se não fosse meu sobrinho, que contava com nove anos. Ciente das leis nobiliárquicas, o pequeno entendeu que o título caberia a mim por ser o primogênito; caso eu não quisesse seria do meu irmão e depois ao mais velho dos netos e por aí afora.
Ora, ele não era o mais velho dos netos. Cruel destino! Na linha de sucessão havia justamente o Lucas, seu irmão, que precisava declinar de tamanha honraria para que tudo desse certo na lógica evidente e nada sutil, do Leonardo Júnior.
Sinceramente, nem eu nem o meu irmão tínhamos pensado em herdar tão honroso título. O Lucas não se manifestou e eu entendi que nada seria mais justo do que outorgar ao Leonardo Júnior o título de Coronel do Tiradentes, o que fiz de imediato, impondo a obrigação de mantê-lo com a mesma alegria de seu avô.
A única coisa que eu lamento é não ter podido transmitir esta comenda com a Banda da Polícia Militar tocando aqueles dobrados e a tropa desfilando em homenagem aos Coronéis Leonardo e Balark.
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