quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Expedição de Manaus-Lábrea. Parte I - Pela BR319.

Não consegui dormir de quinta para sexta-feira, dois de setembro. Os preparativos para a expedição de Manaus à Lábrea, passando por Humaitá, tinham se encerrados e chegara a hora de colocar os carros na estrada. A minha ansiedade era grande, pois seria uma nova experiência na minha vida. A idéia de atravessar a BR-319 e depois alcançar a Transamazônica e seguir até Lábrea surgira durante uma reunião do Amazonas Jeep Clube. Participariam da expedição além de mim, o Chicão, o Ramires e o Evaldo.
Tínhamos marcado que estaríamos na balsa da Ceasa às três horas da madrugada para evitar a longa fila que naturalmente formar-se-ia naquela sexta-feira, véspera do feriado de 7 de setembro. Os meus zequinhas – como são chamados os passageiros pelo pessoal do off-road – eram os amigos Paulo e Igor, ambos igualmente novatos no assunto. Conforme o combinado, o Paulo chegou às duas e meia da manhã e assim que embarcamos as suas tralhas, pegamos o Igor e mais outros dois companheiros – o Evaldo e seu filho Felipe – que seriam zequinhas nos outros carros.
Chegamos conforme o combinado e pegamos os primeiros lugares da fila. Na minha frente estavam o Chicão com o seu filho Alexandre em uma Ford Ranger 4x2 carregando uma moto, o Ramires na sua Nissan Pathfinder, com motor V6 à gasolina e tração 4x4, tendo a bordo o seu filho Ivan e o Edinho. Entre eles o Peter Crichton com sua Land Rover Discovery fabricada em 1990, que não fazia parte da expedição. A minha Mitsubishi Pajero Sport estava abarrotada de gente, de carga. De bom grado, havia me oferecido para fazer as compras da expedição que nada mais era do que ingredientes para churrasco, para café da manhã e caixas e caixas de refrigerantes, de água e de cerveja. Aproveitamos as três horas que teríamos de espera para distribuir os mantimentos e melhor acomodar as bagagens além de transferir para a Ranger do Chicão, os galões de combustível – diesel e gasolina - que seriam necessários para a empreitada.
Depois de tudo preparado, fui apresentado ao Peter, um escocês que trabalha na Arábia Saudita e que estava na sua quarta volta ao mundo com a mesma Land Rover. Claro que o Peter era uma grande figura! Soubemos que ele iria conosco até Humaitá alguns dias antes, quando ele passou por Boa Vista e o pessoal do Jeep Clube de lá, o interceptou pelo meio do caminho. Uma figura dessa não passa despercebida pelos aficionados. A Discovery do Peter, apesar dos seus incríveis trezentos e noventa e seis mil quilômetros rodados, era um grande barato pelos detalhes e pelas idéias, como por exemplo: tudo que ia para a geleira era previamente embalada em sacos herméticos o que permitia ao Peter usar o gelo derretido como água gelada, evidentemente, drenada por uma mangueirinha dessas usadas em banheiro. O inglês dele era muito bom, o meu é que era ruim, ainda assim conseguimos estabelecer vários diálogos interessantes!!!!
Chegou a hora do embarque na balsa e depois de rápidos quarenta e cinco minutos atravessando os rios Negro e Solimões e o encontros das suas águas, desembarcamos no Careiro da Várzea, que nada tem de interessante... Aliás, não tem nada! Seguimos pela 319 até o Careiro Castanho distante cem quilômetros sobre um asfalto muito bom. A viatura que liderava, ia cantando a estrada para os outros dois carros, sendo que o Peter ia em penúltimo porque não tinha rádio. Pouco antes de chegar no Castanho, a amortecedor da Land simplesmente caiu! O Peter tinha tudo dentro do carro dele menos duas arruelas e um parafuso. Sai com o Evaldo atrás dos singelos objetos, encontrados em um monte de ferro velho da garagem da Prefeitura. Com o amortecedor no lugar, partimos definitivamente para a aventura depois de ficarmos uma hora e meia, esperando pelo conserto. Mil metros adiante, a segunda balsa.
A vista do lugar era, é e será durante longos anos, inusitada: parece mentira mais a balsa atravessa o rio bem ao lado de uma ponte gigantesca, com pilares de concreto e vãos de vigas metálicas absolutamente pronta... quer dizer... pronta se as duas cabeceiras estivem sido construídas! É uma ponte que liga, portanto, nada a coisa nenhuma. A imagem que se tem é de uma obra de arte em homenagem a incompetência do ex-ministro Alfredo Nascimento.
Seguimos adiante. O asfalto era coisa do passado, porém como a estrada está sendo recuperada pelo Exército, os cinqüenta quilômetros seguintes são relativamente tranqüilos de serem vencidos, apesar da poeira alva como nuvem, que se eleva a dez metros de altura e penetra em todos os cantos do corpo e do carro. Se chover, tudo vira um lameiro brabo de se ficar em pé.
Antes de acabar o trecho em recuperação, existe o que se chama de segunda balsa, que na verdade é a terceira a partir de Manaus. Fico até encabulado de dizer que do lado da balsa tem outra ponte, absolutamente igual à anterior, inclusive quanto a questão das cabeceiras. Ora, se a primeira ligava nada à coisa nenhuma, esta ligava o quê? Não existe na língua portuguesa uma seqüência de nadas e coisas nenhumas, então fica impossível descrever o que aquela ponte faz ali, perdida no meio do vago, por isso foi impossível controlar um sonoro “puta-que-pariu, Alfredo!”.
Daí em diante a velocidade média despenca para estonteantes vinte quilômetros por hora. Como a nossa idéia era dormir no quilômetro quinhentos e nós estávamos no duzentos, faltavam, portanto, trezentos. Fazendo as contas: trezentos quilômetros à vinte por hora - noves fora – resulta em quinze horas de viagem! Mas como eram treze horas no relógio... chegaríamos no tal quilômetros quinhentos às quatro horas da manhã de sábado, dia três de setembro. Meu Deus! À la Scarllet O’Hara, depois a gente resolve isso, pensamos.
E tome sol e tome buraco e buraco e buraco e buraco. Buraco da pior espécie formado por pedras de asfalto aplicado nos anos de 1980. Existem trechos que a mata somente não fechou a picada - porque aquilo não é uma estrada – porque teimosos aventureiros ainda não deixaram isso acontecer. Os galhos sem folhas nas beiradas, vão literalmente lixando as laterais das viaturas que somente os seus donos e proprietários escutam o arranhamento e sentem no bolso. Intercalando tudo isso, para não causar monotonia e dar sonolência nos motoristas existem umas pontes de madeira de tirar o fôlego dos que as ultrapassam. Em uma delas, ainda antes da segunda ponte que não serve para nada, um caminhão do Exército quebrou tudo e ficou de papo para o ar. Em várias delas, é obrigatório fazer uma inspeção cuidadosa, em outras a entrada e saída são precárias, com valas profundas o que retarda ainda mais a viagem. Na BR-319 o tempo e o espaço tomam uma conotação digna de averiguação por cientistas do mais alto gabarito: o tempo passa normalmente, mas o espaço que a pessoa percorre permanece quase que inalterado por horas! É incrível: anda-se, anda-se e não se sai do lugar. Será que tem alguma coisa haver com o desmatamento da Amazônia?
As pontes nem sempre tem água por baixo e quando esse fenômeno acontece, a água é barrenta, em outras palavras: nada de banho e o sol cozinha a moleira dos aventureiros. A mistura de suor com poeira é muito desagradável e quando se torna insuportável, outra balsa surge à frente. De roupa e tudo, quase todo mundo correu para dentro de um rio belíssimo, de águas escuras e reconfortantes. A balsa desse lugar tinha uma característica interessante: dois brasileiros de braços robustos puxam a balsa para lá e para cá o dia inteiro e ainda cobram vinte reais por carro.
O que restava de dia era muito pouco e a idéia de pernoitar no quinhentos era coisa de um passado longínquo, por isso o novo objetivo passou a ser o trezentos aonde chegamos às nove e meia da noite, absolutamente exaustos, depois de horas de chuva. O lugar era uma das torres repetidoras da Embratel que permite o banho e o pernoite dos aventureiros. As barracas foram montadas, o churrasco foi feito e todos foram dormir. Menos para o Peter! A barraca dele era parecida com um saco de dormir, super-prática de armar e o seu jantar foi outro: em algum momento na última parada ele colocou uma porção de carne assada dentro de um saco desses que vai para o forno e o acomodou no motor do carro, em um canto protegido. O calor do motor aqueceu o seu tranqüilo e prático jantar. E ele foi dormir.  Alguém disse: hoje eu não estou nem para a Shakira!
Pessoalmente, a noite foi maravilhosa com um suave vento frio espantando todos os carapanãs e correlatos. Foi muito bacana dormir sem ar-condicionado; nunca me esquecerei dessa noite na repetidora Aristóteles. A alvorada foi as seis, com o Ramires fazendo todo mundo ouvir uns lamentos sertanejos que não batem muito bem nos meus ouvidos, mas que pela circunstância, não incomodou. Os carros foram reabastecidos e antes das oito estávamos de novo na mesma pisada.
Até agora eu não falei da motocicleta trazida pelo Chicão: a moto era dessas de trilha e foi pilotada durante horas pelo próprio Chicão, pelo Evaldo e pelo Alexandre. Cada vez que mudava de piloto, tínhamos que parar para que o substituto se equipasse com todas as necessárias proteções. Somente quando a noite chegou foi que tivemos que embarcá-la de novo na picape, porque ela não tem farol. Apesar dos atrasos que ela causou, tínhamos a convicção que ela seria útil em caso de emergência, mesmo porque sempre andou muito mais rápido do que os carros.
Desde quando saímos da balsa não se viu mais uma casa; a estrada é um deserto até o entroncamento com a Transamazônica. Chegamos no tal quinhentos, ou na repetidora Brasil, por volta do meio dia, mas seguimos adiante sem qualquer outra novidade até que a noite chegou. Com ela uma chuva daquelas, justamente quando alcançamos um trecho próximo da BR-230 que o Exército está trabalhando. Pelo rádio, o Chicão avisou que a estrada estava muito escorregadia e a visibilidade muito restrita. Eu não pensei duas vezes em tracionar a Pajero, devidamente calçada com pneus Mud, apropriados para esse tipo de terreno. Só o meu carro estava assim. Logo em seguida e sem mais nem menos, a Pathifa escorregou para a esquerda e caiu com a roda dianteira no barranco. Avisei o Chicão pelo rádio, que parou imediatamente. Os meus dois zequinhas, o Paulo e o Igor, saíram do carro com um cabo de aço na mão e com a ajuda dos outros companheiros, que também foram para a chuva e para a lama, engataram a Pathifa na frente na Pajero. A primeira tentativa de puxar o carro do Ramires foi frustrante e piorou a situação, pois o meu espaço para manobrar era muito reduzido, eu não enxergava nada lá atrás e o terreno era muito liso. Quando eu tracionei de ré, a Pajero rabeou e por muito pouco não ficou pendurada no lado oposto. Gritos e pancadas na lataria evitaram o caos. Para piorar a situação, a Pathifa passou a ter as duas rodas dianteiras penduradas. O Chicão nada podia fazer, já que seu carro mal andava reto. Com a orientação do Evaldo, eu e o Ramires sincronizamos as rés e depois de várias tentativas, dei marcha à ré enquanto a turma empurrou com as mãos a Pathifa para o lado e assim ela conseguiu voltar para a estrada. Foi dureza! As tripulações foram refeitas, porém a partir desse momento a lama e a chuva nos acompanhavam fora e dentro do carro. O Paulo e o Igor – molhados e enlameados dos pés a cabeça - tremiam de frio, mas eu tinha que manter o ar-condicionado ligado senão os vidros embaçavam. Eles conseguiram pegar as suas toalhas e se protegeram como puderam até a primeira parada depois da chuva. A situação do Chicão era crítica: seu carro não era 4x4 , os pneus eram para asfalto e a Ranger não parava de balançar de um lado para o outro. Só a sua experiência evitou outros sobressaltos. Por precaução ele trouxera um par de pneus lameiros e o jeito foi colocá-los para rodar. Enquanto os pneus eram trocados, ali no meio daquele nada, os raios continuaram a cortar os céus, as trovoadas ecoavam pela floresta compondo um cenário realmente magnífico. O Peter - que assistiu o resgate de camarote - ficou extasiado! Saiu do carro em minha direção, de braços abertos, com um sorriso largo repetindo: “amazing, fantastic, amazing”. Ele não parou de falar na “storm” e eu não tive como dizer-lhe que aquilo não tinha sido – nem de longe - uma “storm” com ésse maiúsculo. Mas valeu!
Chegamos exaustos em Humaita às dez da noite e não tinha restaurante, somente pizzaria. Fazer o quê? Mas para o Peter... 

terça-feira, 5 de julho de 2011

Incêndio no 501

Aqui está o meu relato do incêndio que destruiu completamente o apartamento debaixo do meu, entremeado pelas história de vários moradores, contadas na emoção do momento. Os momentos de horror vivido pelos moradores merece ser tratado com respeito e prudência. Não se furtem de indicar os erros.

Era pouco mais do que onze horas da noite quando a campainha tocou e a Shirley se levantou para atender. Da sala ela perguntou quem era aquela hora da noite, mas não obteve resposta e nem teve importância; da cozinha uma fumaça preta de cheiro esquisito, lentamente ia tomando conta do apartamento. De repente o silêncio que parecia reinar dentro e fora, foi quebrado por gritos incompreensíveis e ela voltou para o quarto e abriu a janela. Do sexto andar seus olhos miraram diretamente nos olhos de uma vizinha do outro prédio que estava lá embaixo que gritou: desce que está pegando fogo! Acordou as nossas duas filhas dizendo: Vamos descer que tem alguma coisa pegando fogo! Deixem tudo, peguem a escada e não parem para nada! Antes de sair, imaginou que talvez precisasse de alguma proteção e pegou um edredron e seguiu as meninas deixando a porta aberta.
Enquanto as três desciam pela escada, envoltas por uma fumaça preta ainda pouco espessa, cruzaram com um morador que também descia; na descida a Shiley me ligou com uma voz chorosa dizendo: Bal, vem para cá que está pegando fogo! Eu não estava em casa, mas encontrava-me a muito próximo do condomínio e acelerei o mais que pude. Meu coração disparou e não pensei - ou não quis, não lembro – perguntar se elas estavam no apartamento ou se estavam descendo. Entrei no condomínio e vi um morador, um adolescente, do apartamento 501 logo abaixo do meu, gritando palavras ainda desconexas para mim, enquanto um fio de fumaça saia pela varanda. Logo em seguida encontrei a Shirley em prantos tendo ao lado a Ana Vitória e a Maria Luíza, verdadeiramente apavoradas. Ao lado, o marido daquela moradora que mandou a Shirley descer me disse que tinha tentado subir, mas a fumaça estava espessa, não se enxergava nada e não havia condições de se respirar. Normalmente ele ia para o seu sítio nas sextas-feiras, mas naquele dia preferiu ficar em Manaus para ir a um restaurante com a família, e estava entrando no condomínio no momento em que o jovem morador começou a gritar da varanda.
Antes de a Shirley ouvir a campainha, a moradora do apartamento 502 se dirigiu a cozinha para beber água quando viu a fumaça entrar pelas bordas da porta de serviço. Sem alternativa abriu a porta da sala, chamou o elevador social e desceu. Correu para a portaria e foi a primeira a ligar para os Bombeiros e pedir auxilio à portaria que muito pouco podia fazer.
Dentro do apartamento 501 a situação foi desesperadora desde o início. Por algum motivo o rapaz foi até a cozinha e viu a fumaça; chamou a mãe e tentaram apagar o incêndio utilizando o extintor existente no hall de serviço. Com a diminuição das chamas os dois entraram novamente no apartamento para acordar outro morador que continuava dormindo e orientaram-no a descer, o que ele fez um tanto cambaleante devido aos remédios. Foi com ele que as meninas e a Shirley cruzaram enquanto desciam. Por alguma razão, os dois entraram novamente no apartamento e quando tentaram sair o fogo já tinha se alastrado pela cozinha e o jeito foi se proteger na varanda.  Na verdade os dois ficaram presos em uma arapuca arquitetônica: cada apartamento tem duas saídas, a social e a de serviço sendo que somente esta tem acesso a escada. Quando a moradora do 502 saiu pelo elevador social, naturalmente ela fechou a porta e minutos depois quando a mãe e o filho tentaram igualmente fugir pelo hall social, encontraram a porta fechada e, sem alternativa, chamaram o elevador que chegou pegando fogo.
A minha cunhada estava sozinha no apartamento 401, logo abaixo do 501, e ouviu gritos e também desceu pelo elevador social. Quatro pavimentos acima, um casal do apartamento 802 também ouviu os gritos e tentou acessar a escada, mas desistiu quando viu a fumaça minar pelas tomadas da parede e pelo interfone. Chamou o elevador social e mesmo envolto em fumaça preta, temerariamente desceu até o térreo. Foram os últimos a sair do prédio.
Os moradores do 702 ouviram os gritos e tentaram sair pela escada e viram que pelas tomadas da cozinha a fumaça minava violentamente; quando chegaram na porta da escada a fumaça estava densa demais e a escuridão tomava conta do local; voltaram para dentro e se refugiaram durante todo o incêndio dentro do banheiro da suíte. Os do apartamento ao lado viveram o seu drama quando perceberam que não podiam ir pela escada com uma senhora idosa com dificuldade de locomoção.
Em menos de quatro minutos os Bombeiros chegaram ao local trazendo consigo dois caminhões. Para mim e a primeira vista, a situação era grave, mas não era desesperadora até o momento em que tive a idéia de olhar a parte de trás do prédio; as chamas vomitavam pela janela da cozinha e um dos caminhões se deslocou para lá e imediatamente passou a jogar água de baixo para cima. Fiquei alarmado! Por sorte a janela da minha cozinha e do quarto de uma das minhas filhas estavam fechadas e as labaredas não incendiaram o meu apartamento.
No apartamento 501, a situação ficava cada vez mais dramática com o jovem morador gritando insistentemente por socorro. Poucos minutos depois a sua mãe passou a lhe fazer companhia na varanda e cortou a tela de proteção, aumentando o drama da situação. A fumaça agora claramente vomitava pela varanda deixando um pequeníssimo espaço para os dois, justamente na parede que dividia o seu apartamento do vizinho.
Os moradores dos apartamentos superiores que não conseguiram descer ficaram olhando, impotentes e desesperados, pela janela sem que pudessem fazer qualquer coisa e sem que ninguém pudesse lhes prestar qualquer auxílio.
Quando a mãe e o filho chegaram à varanda, chegou um terceiro caminhão do Corpo de Bombeiros trazendo uma plataforma de combate a incêndio, que todos chamam de Magirus. O imenso caminhão teve muita dificuldade para entrar pela estreita e baixa entrada social, enquanto uma multidão de moradores dos outros prédios do condomínio se desesperava gritando para que ele entrasse de qualquer jeito. A alternativa que se tinha, era a entrada de serviço, mais ampla, mas que estava fechada como sempre fica a partir das vinte horas. Além disso, um poço artesiano do próprio condomínio estava sendo perfurado nas proximidades e um caminhão impedia a circulação por uma das faixas, deixando livre uma pequena passagem que agora se sabe, permitiria a entrada do carro dos Bombeiros. Pessoalmente, fiquei com a impressão de que o motorista do pesado caminhão era pouco hábil e não atendia os apelos para dar ré e seguir em frente.
Assim que o carro entrou, todos queriam que ele invadisse o jardim e se posicionasse mais próximo do sinistro. O desespero da multidão era tanto que ninguém - ou quase ninguém – avaliou que se o pesado caminhão tivesse entrada por ali, talvez ele ficasse atolado e piorasse, em muito, a situação. O comando dos Bombeiros, sabiamente, preferiu posicionar o caminhão lateralmente e lentamente começou a esticar a escada. Mais uma vez, do meu ponto de vista, fiquei com a impressão de que o bombeiro que manuseava a escada não era tão hábil quanto o necessário, pois ela subia, voltava um pouco, girava para um lado, para o outro e isso - repito, no meu entender -demorou uma eternidade.
Enquanto o caminhão e a escada não entrevam e não alcançavam o quinto andar, o adolescente passou perigosamente por fora para o outro apartamento diante do olhar e dos gritos desesperados da multidão, que supunha que ele fosse se lançar. Alguém gritou para ele pegar uma toalha molhada e desse para sua mãe que não tentou segui-lo.
Enquanto a lenta escada subia na direção do 501, uma equipe dos Bombeiros conseguiu corajosamente alcançar o 402 e jogou uma corda para o jovem que estava no apartamento 502 imediatamente acima, que era da moradora que primeiro avisou sobre o incêndio. Demonstrando coragem, o adolescente se amarrou à corda se esticou por fora da varanda quando foi agarrado pelas penas por um bombeiro - que também estava arriscando a sua vida, pois estava de pé no parapeito, apesar de amarrado e seguro por seus companheiros – e trazido em segurança para o térreo pela escada do prédio, utilizando uma máscara de oxigênio. Foi uma cena de horror.
Apesar de a minha cunhada ter deixado o seu apartamento aberto - o 401, portanto ao lado de onde estavam os homens do Corpo de Bombeiros - eles não tiveram condições de entrar e repetir o resgate da moradora, que estava imediatamente acima. O perigo era evidente, ninguém poderia garantir a integridade estrutural da laje de piso diante de tanto fogo. A única alternativa era a escada “Magirus”.
Espremida no único canto que não tinha labaredas, a moradora manteve a calma enquanto os bombeiros molhavam-na com água lançada do térreo. Enfim a escada chegou à varanda e um bombeiro auxiliou a moradora a passar desta para aquela. Ao se apoiar e depois pisar no ferro do parapeito para passar para a escada, foi que ela teve as suas únicas queimaduras nas pontas dos dedos das mãos e dos pés.
Nitidamente abalada, lentamente a moradora desceu a escada e foi levada pelo SAMU para o pronto-socorro. Enquanto ela descia com a ajuda de um bombeiro, outro subiu com uma mangueira e enfrentou o fogo da varanda para dentro, chegando à cozinha e aos quartos do apartamento. Tudo havia sido destruído, exceto um dos quatro cômodos do apartamento de mais de 160 metros quadrados de área.
Com o fogo aparentemente sob controle, as minhas filhas pediram para que eu resgatasse o nosso gato, o Kako! Não havia como não supor o pior, mas pedi permissão aos Bombeiros e subi até o 601 com acompanhado de um deles. Eu queria ir até lá para ver os estragos e resgatar o Kako, mas achei temerário o fato de ter que pisar em uma laje submetida a altas temperaturas. De qualquer forma, nos subimos. Procurei pelo bichano em todos os cantos possíveis e não o encontrei. Como a Shirley deixara a porta aberta, eu imaginei que ele tivesse fugido pela escada e me deu uma angustia. De repente me deu um estalo de olhar para debaixo da minha cama e lá estava o Kako, absolutamente desesperado. Puxei a cama, mas ele fugiu; corri pelo apartamento atrás dele sem conseguir alcança-lo e sem conseguir manter os pés no chão de tão quente que estava. Enfim, agarrei-o depois de ter sido mordido e muito arranhado e trouxe-o para as minhas filhas que choraram com o seu gato antes branco, agora cinzento.
Muitos moradores aproveitaram a oportunidade para subir e ver o estado dos seus apartamentos. Os que ficaram presos pelo fogo puderam descer, exceto os moradores do último pavimento, que por motivos diferentes não o fizeram: os do apartamento 1201 não tinha como descer pela escada com uma senhora hipertensa e decidiram passar a noite por lá, sem água e gás; o japonês do 1201 foi o mais feliz de todos, pois não ouviu nada, não viu nada, dormiu a noite inteira e somente na manhã seguinte que algo diferente ocorrera quando tentou em vão pegar os elevadores e desceu por uma escada suja e fétida.
Logo depois e sem que ninguém esperasse, o fogo recomeçou violentamente no escritório do 501 e, sinceramente, não havia mais dúvidas de que o fogo se alastraria e o meu apartamento seria incendiado. A escada “Magirus” fora recolhida e os bombeiros subiram pela escada do prédio, envoltos em fumaças e fuligens. As labaredas tomavam conta de tudo; estalos se ouviam a todo minuto até que o fogo foi lentamente controlado pelos bombeiros, que usavam - diga-se de passagem – uma lanterna cedida por um morador do condomínio. A multidão se desesperou com os bombeiros e muitos colocaram em dúvida as suas ações.
Por volta das quatro horas da manhã de dois de julho, o incêndio estava realmente controlado, mas o coração ainda batia muito acima do que o normal. De repente eu estava sem apartamento e nos mudamos para o do meu irmão, no mesmo condomínio, que estava com uma hóspede francesa. No improviso de trazer colchões a Shirley encontrou pela escada do nosso prédio, uma empregada que mal fala português dizendo que não tinha onde ficar, pois a patroa não passara bem e fora removida para o pronto-socorro.
Onde dormem dez - onze com a hóspede - dormem doze e assim passamos a noite, pensando no recomeço e agradecendo à Deus.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A amizade pelo ralo: cuidado com a inveja!

Certa vez um amigo disse uma frase interessante: “tirante as doenças graves e as incuráveis, todo e qualquer problema, tem sempre um cunho financeiro”. Carregada de sacarmos e ironias a afirmativa se adapta com perfeição a grande maioria dos problemas humanos, mas peca, com bom humor, diante de outros. Reduzir, por exemplo, a amizade, a admiração, o respeito e o amor a uma relação de cifrões, só pode ser entendida como a mais pura brincadeira, dado que elas simplesmente não existem dessa forma: ou se admira e se gosta e se aceita alguém como ela é, com suas qualidades e defeitos, ou se tem pelo outro um puro interesse, na maioria das vezes, financeiro.
Pode ser também, que uma relação não se estabeleça com base nesse mesquinho sentimento, pois se de alguma forma, subliminar ou não, as diferenças culturais, sociais e econômicas se sobrepuserem aos nobres valores, a relação também deixará de ser sincera para ser falsa, o que causará magoas e decepções do mesmo jeito. E seja lá em qual for a direção!
Na grande maioria das vezes, o estabelecimento de diferenças e distanciamentos com base nesses aspectos tem, infelizmente, o tal cunho financeiro.
A escolha de quem pode ou não trilhar ao nosso lado, é absolutamente pessoal, porém, muitas vezes outras pessoas cruzam os nossos caminhos e a tolerância dita o comportamento. É a tolerância, a senha para consolidar qualquer tipo de relacionamento, aqui considerada do casual até o mais íntimo. Se aquela esporádica, decorrente da própria rotina individual, de alguma forma nos faz bem, ela deve ser cultivada mesmo que existam diferenças, não esquecendo, porém, que jamais será uma árvore frondosa, será sempre um bonsai.
A amizade íntima pressupõe uma tolerância muito acima da outra e as divergências culturais, sociais e econômicas são administradas pela média aritmética simples: se o resultado estiver dentro daquilo que se entende como prazeroso, eis um bom relacionamento. Tudo porque a vida de cada um é escrita por si e na imensa maioria das vezes, ninguém tem nada haver com os problemas, frustrações, recalques e alucinações dos outros: ou se impõe restrições e se refloresta o mundo com as arvorezinhas japonesas, ou faz da aceitação, da admiração e do respeito às sementes da superação da vida, o que é maravilhoso.
Seja lá como for, qualquer tipo de sentimento que busque o distanciamento é perigoso, exceto, é claro, se por trás dele estiver um justo sentido de proteção ou defesa. Desses sentimentos, a inveja talvez seja o que mais abale qualquer relação, porque ela jamais aproxima de fato, força uma condição insustentável e corrói lentamente, como um ácido, as teias delicadas da amizade. E, infelizmente, a inveja é quase sinônima do aspecto econômico e não há média que resista aos seus dissabores. Os efeitos colaterais desse pecado capital são cruéis ao ponto de estabelecer falsas diferenças culturais e sociais, que com o passar do tempo ganham corpo e vida própria, ficando outras verdades, reduzindo a nada todo o passado comum. Também são perniciosos porque destroem o respeito e a admiração do outro, do invejado, tornando todo o conteúdo cultural do invejoso, um mero acervo de uma biblioteca inatingível e desnecessária.
A opção por viver de determinada maneira não torna ninguém melhor ou pior do que o outro nem pode pautar uma amizade, pois é reduzir dois mundos distintos para um só, o que seria puro egoísmo. Isso também não dá o direito de entender o outro, que lhe é contrário, como marginal porque abre um justo espaço do entendimento reverso. O egoísmo é, assim, ruim às relações humanas e só pode ser entendido como um sentimento de autodefesa que tenta, no fundo, escamotear visíveis diferenças impostas unilateralmente, normalmente em relação aos cifrões.
Por isso, uma amizade leva muito tempo para se estabelecer e segundos para descer pelo ralo. As diferenças precisam ser aceitas e compreendidas para que haja uma relação digna e respeitosa, quando, então, ninguém será mais do que o outro na plenitude, o será apenas pontualmente.
Entendo, por fim, que em uma relação decente entre homens de bem e de caráter deve haver um sonho comum: o de tentar, cada um a seu modo, fazer do mundo um local melhor para se viver.

bAl

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

De carro até a Isla de Margarita: por cinqüenta centavos a mais...

Apesar de ser um dos maiores produtores de petróleo, a Venezuela não tem capacidade para refinar o seu ouro negro, tampouco tem condições de atender a sua própria demanda interna por diesel e gasolina. São normais as imensas filas nos postos de combustível que, via de regra, fecham a noite, o que não altera o gosto dos venezuelanos pelos motores V6 e V8, sabidamente beberrões. Até mesmo pequenos ônibus e caminhões são movidos por esses motores que, diga-se de passagem, produzem um som imponente, muito gostoso de ouvir.
Mas isso tudo eu só aprendi depois!
Parei para almoçar em Upata sentado de frente para um posto de combustível. Meu anjo da guarda é dos bons, porém conta demais comigo, apenas sinaliza, não fala. Como o Pajerão tinha mais de meio tanque, deixei para abastecer adiante na certeza (baré) de que teriam outros postos.
As cidades foram passando, passando, passando... uma atrás da outra e nada de posto, pelo menos no eixo da estrada. Empolgado com a pista sem buracos, mantinha o motor do Pajerão roncando a três mil rotações por minuto, condicionador de ar ligado, até que entrei num reserva indígena, sem saber que existia um negócio desses no meio da Venezuela.
O ponteiro de combustível foi baixando, baixando, baixando... e eu, então, me dei conta de como tinha sido imprudente. Senti-me o próprio Garcez, aquele piloto da Varig que pousou tranquilamente no meio da floresta amazônica com os tanques repletos de vento. Tal qual o piloto que avisou a tripulação para se preparar para um pouso forçado, eu mostrei à Shirley a situação do ponteiro, mais brochado do que aquilo de velho. Senhor da situação, pedi para não alarmar as meninas que tudo daria certo, mas não deu não!
Sem poder retornar, continuei absolutamente tenso na direção norte até que a luz amarela acendeu. Pane seca no meio do nada, ou melhor, pane seca no trecho mais perigoso de toda a viagem, qual seja, entre El Tigre e Cantaura. Eram quase dezoito horas e o sol se preparando para iluminar o outro lado do mundo, me deixando no escuro contemplando o nosso ocaso.
O outro carro que nos acompanhava era movido a gasolina e sem poder fazer nada, parou atrás. Houve uma rápida troca de tripulação com a Shirley seguindo com as meninas no outro carro e eu fiquei com a Tubinho e com a tia Joaquina, que vinham alegres no Siena. Olhei no mapa e pela quilometragem achei que ela iria andar uns cem quilômetros, cinqüenta em cada direção.
Agora a história também passa a ter duas direções a de quem ficou e a dos que foram.
A de quem ficou começou muito mal: fumei o ultimo cigarro, contemplando a paisagem! De um lado, um serrado lindo de morrer com serras ao longe; do outro, onde o sol de punha, um serrado lindo de morrer com serras ao longe. Não vi nada vivo, nem passarinhos.
A Joaquina, uma senhora de mais de setenta anos, fez sinal pedindo ajuda até que parou um caminhão. O motorista perguntou o que tinha ocorrido e eu disse, em espanhol, que havia ficado sem diesel. Diesel? O que é isso? Indagou o gentil homem. Meu Deus! Como é que se chama diesel em espanhol? Indaguei, eu. Ele sugeriu: gasoil? Eu topei. Pediu uma mangueira e eu disse “yo no tengo!”, pediu uma “botella” e eu disse que também não tinha, simplesmente, porque  não sabia o que era. Ele foi embora.
Em seguida parou outro e eu fui logo dizendo: “yo no tengo gasoil, nim maguera, nim botella”. Mas aquele motorista era dos bons além de poliglota: viu uma embalagem dessas de óleo de motor de carro, do outro lado da estrada e disse “botella”. Desconectou uma mangueira do seu tanque, encheu quatro vezes a tal “botella” e me deu vinte litros de “gasoil”. Quando ele foi re-conectar a mangueira, a rosca não pegou mais. Tentou várias vezes até que disse, “adelante, aqui es muy peligroso”. Dei um dinheiro para ele e fomos embora na escuridão da noite, depois que quase uma hora parados.
Voltei dando jogo de luz para todos os carros que passavam no sentido contrário, tentando identificar a Shirley sob péssima condição de visibilidade.
Os que foram também sofreram, inclusive do mesmo mal da luz da gasolina. Pouco antes de um posto, a luz da reserva acendeu e eles abasteceram. Mas lá não vendia “gasoil”. Seguiram as orientações do pessoal do posto até que chegaram numa casa que vendia combustível clandestinamente, dado que os postos fecham a noite.
Entraram na casa da moradora, chorando e pedindo ajuda. A Ana Vitória, minha filha mais velha, manteve a calma e conseguiu que lhe fosse dado vinte litros de diesel, envasados em embalagens “pet”. Aquelas pessoas foram muito gentis, tanto que inicialmente recusaram qualquer tipo de pagamento, mas depois cederam por insistência da Titole.
Retomaram o caminho de volta.
De nosso lado, ficamos o tempo todo chamando pelo rádio mas nada de atendimento. Continuei adiante, dando sinal para todo mundo, até que a Shirley passou... mas não me viu e nem respondeu aos chamados radiofônicos.
Consegui um lugar para retornar e segui no seu encalço, sempre chamando pelo rádio, até que ouvimos uma resposta. Paramos, levei as pets para o Pajerão, remontamos as tripulações e seguimos. No primeiro bar, parei para comprar cigarro e duas cervejas.
Achamos um hotel e dormimos, exaustos.
O pior de tudo é dizer que para encher o tanque do Pajerão com “gasoil” se gasta menos de dois bolivares, o que equivale a menos de cinqüenta centavos de real.

By bAl


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

De carro até a Isla de Margarita: entre carimbos e fuzis

Sob vários aspectos, viajar de carro é uma aventura sujeita á chuvas e trovoadas no decorrer do percurso, portanto, quem se dispõe a isso sabe muito bem que os imprevistos fazem parte da viagem e são justamente eles que a tornam interessante. Não troco por nada colocar o meu carro na estrada.
Mas ir de carro até a Isla de Margarita é muito mais do que passar, digamos assim, por problemas atmosféricos; na verdade, é vencer a dúvida cruel e interminável que o Gobierno Revolucionário Bolivariano de Venezuela tem quanto a entrada de brasileiros em seu território. Essa dúvida, diga-se de passagem, há mais de uma década que persegue psicologicamente a Guarda Nacional, órgão responsável pela segurança política e militar de Hugo Chaves.
Os abusos são muitos e de todas as ordens. Não titubeio em afirmar que não existe brasileiro que tenha trafegado pela Venezuela que não tenha sido alvo de ameaças, de truculências e, fundamentalmente, de tentativas, consumadas ou não, de subornos.
As naturais e compreensíveis tratativas burocráticas para entrada no território venezuelano, se transformam em si na primeira aventura. E que baita aventura.
É certo que vários brasileiros querem entrar de qualquer jeito, o que faz do ingresso um jogo de paciência entre o interessado e ele mesmo, mas o trâmite burocrático leva qualquer cristão à exaustão. Em uma sala os passaportes são carimbados e os dados transcritos, em letras ininteligíveis para um livro: tudo é anotado, a viagem toda e em todo lugar existem livros e carimbos azuis e vermelhos. Simples burocracia que os militares sempre adoraram lá e cá e acolá.
Depois o carro precisa ser liberado, o que é, mais uma vez, bastante compreensível. Entendo normal que o proprietário esteja presente, afinal a quem cobrar em caso de acidentes e outros danos? Mas exigir que o proprietário seja o motorista ultrapassa o limite do bom senso. A burocracia é tão grande que se não existem leis oficiais, os aduaneiros concebem uma oportunamente, querendo, na verdade, propina. Inicialmente exigem, por exemplo, que seja apresentada uma autorização passada em cartório e com selo brasileiro, mas depois a conversa muda para um cartório venezuelano. Com a documentação verificada, por um fiscal que faz questão de ensinar que ele faz parte do gobierno, o viajante tem que conseguir o Permisso do carro, documento mais importante que o próprio passaporte.
Depois de duas horas, mais ou menos, o Permisso é liberado e será infinitamente exigido e carimbado durante a viagem. O tal papel é tão importante que deve ser devolvido na volta com um número par de carimbos no verso, ou seja, se na ida o viajante conquistar três carimbos, na volta ele deve rezar um rosário para consegui-los novamente. Não é fácil, mas não há com que se preocupar se um amigo tiver mais carimbos, o que vale é conseguir tantos na ida e o mesmo tanto na volta. Até torna a viagem menos monótona e com os quilômetros passando, até causa uma animação dentro do carro: é aqui... não é na outra...
Enfim, a estrada sem buracos e nem sempre bem sinalizada.
A Gran Saban é deslumbrante, linda e encantadora; lá tem a mão de Deus em momentos da mais sagrada inspiração.
Mas lá tem a mão de Hugo Chaves e sua Guarda Nacional Revolucionária Bolivariana de Venezuela, a qual é devotada toda honra e toda glória, sempre armada com seus revolveres e metralhadoras.
Dezenas de postos policiais comandados por aspirantes a soldados tem plenos poderes sobre qualquer um. Dependendo do humor ou do sol ou da fome ou de sei lá o quê, o comandante pode dar uma ordem de parar todo mundo para vistoriar o carro ou, simplesmente, ver o passaporte ou o tal permisso ou a carteira de vacinação ou tudo junto e misturado, se lhe convier.
A arrogância e a prepotência são quase que normais; eles não encaram ninguém, têm o olhar dissimulado dos corruptos.
Em outras vezes, tais quais os oportunistas, os soldados dão a entender que o motorista pare o carro e quando isso acontece, eles ordenam “adelante!” depois de analisar que não há motivo aparente para uma propina.
Na saída de El Tigre os sobreviventes passam pelo o ápice do pânico e do terror: a Guarda Nacional instalou vários contêineres sem janelas e com ar refrigerado, para onde são levados os brasileiros que são submetidos a um avassalador conjunto de ameaças que vão do retorno, da prisão, do pagamento de multas milionárias e etc... caso não seja dado uma propina que varia de três a cinco mil bolivares, cerca de mil reais. Na viagem que fiz, eu conheci cinco famílias que tinham passado por isso e a minha só não foi para o contêiner porque eu não deixei. No meu caso, tudo porque a data de nascimento na carteira de vacinação de um dos passageiros do outro carro, era a mesma da emissão do documento. Como a carteira foi emitida em 2007, o passageiro deveria ser uma criança com quase quatro anos apesar de o passaporte mostrar que ele tinha vinte e cinco anos.
Durante as tratativas deste problema, eu fiquei afastado até o momento que ele ameaçou a minha esposa, quando, então, literalmente botei o dedo na cara do soldado ordenando que fosse chamado o seu comandante para irmos para a Embaixada brasileira, que eu até hoje não sei se existe em El Tigre!
Um soldado frouxo e covarde se desnudou na minha frente; pegou trinta bolivares e devolveu os passaportes. Na saída pediu bombons Garoto e eu disse que em bom espanhol: para usted no tiene Garoto, no tiene bombon, no tiene nada... e pensei no tiene porra ninguma.
Por outro lado, há de ser louvada a preocupação da Guarda Nacional com a segurança dos viajantes brasileiros: corretamente eles exigem o uso do cinto de segurança, senão... Apesar de não ter nada haver com isso, eu achei estranho o fato deles não se preocuparem com os motoristas e passageiros venezuelanos que trafegam sem cinto, sem faróis, sem lanternas e, às vezes, sem porta, sem pára-brisas... num monte de carros velhos. Será que a  Guardia Nacional Revolucionária Bolivariana de Venezuela não gosta do seus patrícios?
Para entrar no ferry boat que vai à ilha, a burocracia venezuelana deixa qualquer outra com inveja. O boleto tem quatro partes da qual uma é do passageiro e as outras três, são destacadas por pessoas diferentes em um espaço de dez metros! Ou seja, anda-se um pouco e... clique, lá se foi uma parte; três metros depois outro clique e mais adiante o clique derradeiro. Quando se vai, as taxas são pagas por fora, mas quando se retorna os impostos já estão inclusos no valor. Por quê? A meu ver não há explicação minimamente razoável para tal divergência.
Por conta desses fatos, entendo que o Governo Brasileiro deve tentar solucionar esses impasses junto ao Governo Venezuelano para, das duas uma, ou deixar passar em paz ou fechar a fronteira de vez e apertar os venezuelanos que vão a Boa Vista, muitos deles contrabandistas de ouro.