Não consegui dormir de quinta para sexta-feira, dois de setembro. Os preparativos para a expedição de Manaus à Lábrea, passando por Humaitá, tinham se encerrados e chegara a hora de colocar os carros na estrada. A minha ansiedade era grande, pois seria uma nova experiência na minha vida. A idéia de atravessar a BR-319 e depois alcançar a Transamazônica e seguir até Lábrea surgira durante uma reunião do Amazonas Jeep Clube. Participariam da expedição além de mim, o Chicão, o Ramires e o Evaldo.
Tínhamos marcado que estaríamos na balsa da Ceasa às três horas da madrugada para evitar a longa fila que naturalmente formar-se-ia naquela sexta-feira, véspera do feriado de 7 de setembro. Os meus zequinhas – como são chamados os passageiros pelo pessoal do off-road – eram os amigos Paulo e Igor, ambos igualmente novatos no assunto. Conforme o combinado, o Paulo chegou às duas e meia da manhã e assim que embarcamos as suas tralhas, pegamos o Igor e mais outros dois companheiros – o Evaldo e seu filho Felipe – que seriam zequinhas nos outros carros.
Chegamos conforme o combinado e pegamos os primeiros lugares da fila. Na minha frente estavam o Chicão com o seu filho Alexandre em uma Ford Ranger 4x2 carregando uma moto, o Ramires na sua Nissan Pathfinder, com motor V6 à gasolina e tração 4x4, tendo a bordo o seu filho Ivan e o Edinho. Entre eles o Peter Crichton com sua Land Rover Discovery fabricada em 1990, que não fazia parte da expedição. A minha Mitsubishi Pajero Sport estava abarrotada de gente, de carga. De bom grado, havia me oferecido para fazer as compras da expedição que nada mais era do que ingredientes para churrasco, para café da manhã e caixas e caixas de refrigerantes, de água e de cerveja. Aproveitamos as três horas que teríamos de espera para distribuir os mantimentos e melhor acomodar as bagagens além de transferir para a Ranger do Chicão, os galões de combustível – diesel e gasolina - que seriam necessários para a empreitada.
Depois de tudo preparado, fui apresentado ao Peter, um escocês que trabalha na Arábia Saudita e que estava na sua quarta volta ao mundo com a mesma Land Rover. Claro que o Peter era uma grande figura! Soubemos que ele iria conosco até Humaitá alguns dias antes, quando ele passou por Boa Vista e o pessoal do Jeep Clube de lá, o interceptou pelo meio do caminho. Uma figura dessa não passa despercebida pelos aficionados. A Discovery do Peter, apesar dos seus incríveis trezentos e noventa e seis mil quilômetros rodados, era um grande barato pelos detalhes e pelas idéias, como por exemplo: tudo que ia para a geleira era previamente embalada em sacos herméticos o que permitia ao Peter usar o gelo derretido como água gelada, evidentemente, drenada por uma mangueirinha dessas usadas em banheiro. O inglês dele era muito bom, o meu é que era ruim, ainda assim conseguimos estabelecer vários diálogos interessantes!!!!
Chegou a hora do embarque na balsa e depois de rápidos quarenta e cinco minutos atravessando os rios Negro e Solimões e o encontros das suas águas, desembarcamos no Careiro da Várzea, que nada tem de interessante... Aliás, não tem nada! Seguimos pela 319 até o Careiro Castanho distante cem quilômetros sobre um asfalto muito bom. A viatura que liderava, ia cantando a estrada para os outros dois carros, sendo que o Peter ia em penúltimo porque não tinha rádio. Pouco antes de chegar no Castanho, a amortecedor da Land simplesmente caiu! O Peter tinha tudo dentro do carro dele menos duas arruelas e um parafuso. Sai com o Evaldo atrás dos singelos objetos, encontrados em um monte de ferro velho da garagem da Prefeitura. Com o amortecedor no lugar, partimos definitivamente para a aventura depois de ficarmos uma hora e meia, esperando pelo conserto. Mil metros adiante, a segunda balsa.
A vista do lugar era, é e será durante longos anos, inusitada: parece mentira mais a balsa atravessa o rio bem ao lado de uma ponte gigantesca, com pilares de concreto e vãos de vigas metálicas absolutamente pronta... quer dizer... pronta se as duas cabeceiras estivem sido construídas! É uma ponte que liga, portanto, nada a coisa nenhuma. A imagem que se tem é de uma obra de arte em homenagem a incompetência do ex-ministro Alfredo Nascimento.
Seguimos adiante. O asfalto era coisa do passado, porém como a estrada está sendo recuperada pelo Exército, os cinqüenta quilômetros seguintes são relativamente tranqüilos de serem vencidos, apesar da poeira alva como nuvem, que se eleva a dez metros de altura e penetra em todos os cantos do corpo e do carro. Se chover, tudo vira um lameiro brabo de se ficar em pé.
Antes de acabar o trecho em recuperação, existe o que se chama de segunda balsa, que na verdade é a terceira a partir de Manaus. Fico até encabulado de dizer que do lado da balsa tem outra ponte, absolutamente igual à anterior, inclusive quanto a questão das cabeceiras. Ora, se a primeira ligava nada à coisa nenhuma, esta ligava o quê? Não existe na língua portuguesa uma seqüência de nadas e coisas nenhumas, então fica impossível descrever o que aquela ponte faz ali, perdida no meio do vago, por isso foi impossível controlar um sonoro “puta-que-pariu, Alfredo!”.
Daí em diante a velocidade média despenca para estonteantes vinte quilômetros por hora. Como a nossa idéia era dormir no quilômetro quinhentos e nós estávamos no duzentos, faltavam, portanto, trezentos. Fazendo as contas: trezentos quilômetros à vinte por hora - noves fora – resulta em quinze horas de viagem! Mas como eram treze horas no relógio... chegaríamos no tal quilômetros quinhentos às quatro horas da manhã de sábado, dia três de setembro. Meu Deus! À la Scarllet O’Hara, depois a gente resolve isso, pensamos.
E tome sol e tome buraco e buraco e buraco e buraco. Buraco da pior espécie formado por pedras de asfalto aplicado nos anos de 1980. Existem trechos que a mata somente não fechou a picada - porque aquilo não é uma estrada – porque teimosos aventureiros ainda não deixaram isso acontecer. Os galhos sem folhas nas beiradas, vão literalmente lixando as laterais das viaturas que somente os seus donos e proprietários escutam o arranhamento e sentem no bolso. Intercalando tudo isso, para não causar monotonia e dar sonolência nos motoristas existem umas pontes de madeira de tirar o fôlego dos que as ultrapassam. Em uma delas, ainda antes da segunda ponte que não serve para nada, um caminhão do Exército quebrou tudo e ficou de papo para o ar. Em várias delas, é obrigatório fazer uma inspeção cuidadosa, em outras a entrada e saída são precárias, com valas profundas o que retarda ainda mais a viagem. Na BR-319 o tempo e o espaço tomam uma conotação digna de averiguação por cientistas do mais alto gabarito: o tempo passa normalmente, mas o espaço que a pessoa percorre permanece quase que inalterado por horas! É incrível: anda-se, anda-se e não se sai do lugar. Será que tem alguma coisa haver com o desmatamento da Amazônia?
As pontes nem sempre tem água por baixo e quando esse fenômeno acontece, a água é barrenta, em outras palavras: nada de banho e o sol cozinha a moleira dos aventureiros. A mistura de suor com poeira é muito desagradável e quando se torna insuportável, outra balsa surge à frente. De roupa e tudo, quase todo mundo correu para dentro de um rio belíssimo, de águas escuras e reconfortantes. A balsa desse lugar tinha uma característica interessante: dois brasileiros de braços robustos puxam a balsa para lá e para cá o dia inteiro e ainda cobram vinte reais por carro.
O que restava de dia era muito pouco e a idéia de pernoitar no quinhentos era coisa de um passado longínquo, por isso o novo objetivo passou a ser o trezentos aonde chegamos às nove e meia da noite, absolutamente exaustos, depois de horas de chuva. O lugar era uma das torres repetidoras da Embratel que permite o banho e o pernoite dos aventureiros. As barracas foram montadas, o churrasco foi feito e todos foram dormir. Menos para o Peter! A barraca dele era parecida com um saco de dormir, super-prática de armar e o seu jantar foi outro: em algum momento na última parada ele colocou uma porção de carne assada dentro de um saco desses que vai para o forno e o acomodou no motor do carro, em um canto protegido. O calor do motor aqueceu o seu tranqüilo e prático jantar. E ele foi dormir. Alguém disse: hoje eu não estou nem para a Shakira!
Pessoalmente, a noite foi maravilhosa com um suave vento frio espantando todos os carapanãs e correlatos. Foi muito bacana dormir sem ar-condicionado; nunca me esquecerei dessa noite na repetidora Aristóteles. A alvorada foi as seis, com o Ramires fazendo todo mundo ouvir uns lamentos sertanejos que não batem muito bem nos meus ouvidos, mas que pela circunstância, não incomodou. Os carros foram reabastecidos e antes das oito estávamos de novo na mesma pisada.
Até agora eu não falei da motocicleta trazida pelo Chicão: a moto era dessas de trilha e foi pilotada durante horas pelo próprio Chicão, pelo Evaldo e pelo Alexandre. Cada vez que mudava de piloto, tínhamos que parar para que o substituto se equipasse com todas as necessárias proteções. Somente quando a noite chegou foi que tivemos que embarcá-la de novo na picape, porque ela não tem farol. Apesar dos atrasos que ela causou, tínhamos a convicção que ela seria útil em caso de emergência, mesmo porque sempre andou muito mais rápido do que os carros.
Desde quando saímos da balsa não se viu mais uma casa; a estrada é um deserto até o entroncamento com a Transamazônica. Chegamos no tal quinhentos, ou na repetidora Brasil, por volta do meio dia, mas seguimos adiante sem qualquer outra novidade até que a noite chegou. Com ela uma chuva daquelas, justamente quando alcançamos um trecho próximo da BR-230 que o Exército está trabalhando. Pelo rádio, o Chicão avisou que a estrada estava muito escorregadia e a visibilidade muito restrita. Eu não pensei duas vezes em tracionar a Pajero, devidamente calçada com pneus Mud, apropriados para esse tipo de terreno. Só o meu carro estava assim. Logo em seguida e sem mais nem menos, a Pathifa escorregou para a esquerda e caiu com a roda dianteira no barranco. Avisei o Chicão pelo rádio, que parou imediatamente. Os meus dois zequinhas, o Paulo e o Igor, saíram do carro com um cabo de aço na mão e com a ajuda dos outros companheiros, que também foram para a chuva e para a lama, engataram a Pathifa na frente na Pajero. A primeira tentativa de puxar o carro do Ramires foi frustrante e piorou a situação, pois o meu espaço para manobrar era muito reduzido, eu não enxergava nada lá atrás e o terreno era muito liso. Quando eu tracionei de ré, a Pajero rabeou e por muito pouco não ficou pendurada no lado oposto. Gritos e pancadas na lataria evitaram o caos. Para piorar a situação, a Pathifa passou a ter as duas rodas dianteiras penduradas. O Chicão nada podia fazer, já que seu carro mal andava reto. Com a orientação do Evaldo, eu e o Ramires sincronizamos as rés e depois de várias tentativas, dei marcha à ré enquanto a turma empurrou com as mãos a Pathifa para o lado e assim ela conseguiu voltar para a estrada. Foi dureza! As tripulações foram refeitas, porém a partir desse momento a lama e a chuva nos acompanhavam fora e dentro do carro. O Paulo e o Igor – molhados e enlameados dos pés a cabeça - tremiam de frio, mas eu tinha que manter o ar-condicionado ligado senão os vidros embaçavam. Eles conseguiram pegar as suas toalhas e se protegeram como puderam até a primeira parada depois da chuva. A situação do Chicão era crítica: seu carro não era 4x4 , os pneus eram para asfalto e a Ranger não parava de balançar de um lado para o outro. Só a sua experiência evitou outros sobressaltos. Por precaução ele trouxera um par de pneus lameiros e o jeito foi colocá-los para rodar. Enquanto os pneus eram trocados, ali no meio daquele nada, os raios continuaram a cortar os céus, as trovoadas ecoavam pela floresta compondo um cenário realmente magnífico. O Peter - que assistiu o resgate de camarote - ficou extasiado! Saiu do carro em minha direção, de braços abertos, com um sorriso largo repetindo: “amazing, fantastic, amazing”. Ele não parou de falar na “storm” e eu não tive como dizer-lhe que aquilo não tinha sido – nem de longe - uma “storm” com ésse maiúsculo. Mas valeu!
Chegamos exaustos em Humaita às dez da noite e não tinha restaurante, somente pizzaria. Fazer o quê? Mas para o Peter...
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