segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O título de Coronel

Nos anos finais do século passado, para ser bem chique no palavreado, a minha família passou a morar lá pelas bandas do conjunto Tiradentes, bem ali na ilharga da Zona Leste de Manaus. Construído nos anos setenta, o Tiradentes abrigava um monte de oficiais da Polícia Militar do Amazonas o que, infelizmente, não impedia a visita daqueles ilustres desconhecidos que gostam de se apropriar dos bens alheios. Mas sabe-se lá por que, meu pai acabou acunhado de Coronel pelos vizinhos mais chegados, que deixa estar, amigo leitor, só um tinha sido militar e era Coronel de fato.
Coronel de verdade ou não, meu pai andava pelo Coroado sempre saudado desta forma pelos feirantes, pedreiros, encanadores, passadeiras, vigias, jardineiros e tudo mais de gente que luta para sobreviver nesse bairro próximo, mas tão distante da oficialidade do Tiradentes.
Os vizinhos da rua das Papoulas gostavam de se reunir aos domingos no quintal asfaltado que passava, coincidentemente, na frente das suas casas. Meu pai, cardíaco do dedão do pé ao mais longínquo fio dos cabelos, por lá maneirava nos churrascos e nos iaçás e, que ninguém nos ouça, nas tartarugadas. Como se vê, seguia religiosamente o preceito médico de não abusar no sal e na gordura e noutros detalhes menores.
Clerical, papai seguia religiosamente o que lhe mandava...  a boca e os olhos, sem medo algum de depois jurar que não tinha abusado.
Mas abusar de quê? Lascado, com três infartos e o mesmo número de cirurgias e com dez vezes isso de pontes de safena, mamária e tudo de veias e artérias e sei lá o quê, instalado no coração, que cristão, temente a Deus e com quase setenta anos de idade se preocuparia com tantos detalhes menores?
Não deu outra. Lascado desse jeito teve uma recaída, quase viu a Luz celestial e lá no fim do túnel recebeu um marca-passo e reviveu. O homem remoçou tanto que pouca gente acreditava que, diante de si, estava um “caboco” que tinha um pé aqui e o resto do corpo lá do lado da eternidade.
Mas Deus é danado mesmo. Absolutamente incrédulo diante de tão teimoso vivente, que apostava tudo na vida, deixou o tempo correr, mas um dia fez valer o seu poder e bateu o martelo. Sou capaz de jurar que Ele deu essa martelada, posto de pé e bem sisudo e impaciente com seu abusado discípulo.
Com a morte do papai sobraram as lembranças e as heranças, sendo uma grande e a outra pequena. Com a família unida e em paz, dividimos os bens, somamos as forças, multiplicamos a fé em Deus e seguimos adiante certos de que tudo estava bem resolvido.
Mas, pouco tempo depois... Surpresa! Íamos esquecendo o título de Coronel que andava assim, sem dono dentro da família, se não fosse meu sobrinho, que contava com nove anos. Ciente das leis nobiliárquicas, o pequeno entendeu que o título caberia a mim por ser o primogênito; caso eu não quisesse seria do meu irmão e depois ao mais velho dos netos e por aí afora.
Ora, ele não era o mais velho dos netos. Cruel destino! Na linha de sucessão havia justamente o Lucas, seu irmão, que precisava declinar de tamanha honraria para que tudo desse certo na lógica evidente e nada sutil, do Leonardo Júnior.
Sinceramente, nem eu nem o meu irmão tínhamos pensado em herdar tão honroso título. O Lucas não se manifestou e eu entendi que nada seria mais justo do que outorgar ao Leonardo Júnior o título de Coronel do Tiradentes, o que fiz de imediato, impondo a obrigação de mantê-lo com a mesma alegria de seu avô.
A única coisa que eu lamento é não ter podido transmitir esta comenda com a Banda da Polícia Militar tocando aqueles dobrados e a tropa desfilando em homenagem aos Coronéis Leonardo e Balark.

bY bAl

domingo, 21 de novembro de 2010

Chega de saudade!

Depois de 50 anos, a Bossa Nova continua viva, apaixonada e apaixonante, ainda deixando nos corações uma maravilhosa saudade, tingida por uma tal batida que até hoje poucos conseguem compreende-la com a devida clareza. Pouco importa, a arte não exige que a compreendamos, ela simplesmente espera que sejamos emocional ou comportamentalmente afetados diante ou distante dela.
A musica “Chega de Saudade” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes é um exemplo disso: é uma canção de amor que, indistintamente, foi e é e continuará sendo utilizada por todos os corações, não importando que o gênero da pessoa que canta, na letra original, seja masculino.
É de se ousar dizer que não existe brasileiro que não a conheça e que não saiba cantarolar pelos menos os seus versos iniciais. Basta um violão tocar os primeiros acordes que nos surge da alma e não da memória, os pedidos para que a Tristeza, a mensageira da canção, vá até o amor perdido e lhe diga que “sem [ele] não pode ser”. E como a dor da saudade é grande, a Tristeza, de antemão, está autorizada a clamar até aos céus, se for necessário.
Depois disso a Tristeza é uma ouvinte de desabafos sinceros, que ocorrem, diga-se de passagem, em apenas um momento de toda a canção. O que canta se despe de tudo e reconhece que a melancolia em que se encontra vem da ausência do amor perdido e por isso “não há paz” e “não há beleza” em seu viver. No fundo do poço da desilusão, reconhece, humilde e insistentemente, que aquilo tudo “não sai”, “não sai” e “não sai”.
Para ir da realidade à ilusão, Tom Jobim e Vinícius bastaram-se em um clássico acorde, que interrompe com o passado de tristeza para fazer nascer um universo de promessas apaixonadas. E tome promessas e acordes lindamente melodiosos.
Os versos que se seguem foram concebidos para reconquistar o grande amor. Usando uma lógica de exageros que só cabe nos corações apaixonados, duas comparações inesquecíveis dão o tom das promessas: a primeira, a dos peixinhos e beijinhos e a outra, dos braços e abraços. Como condiz à alegria do amor, ainda que este se encontre do campo das suposições, o que entrelaça tudo isso é um desejo ardente, delicadamente transformado na promessa de um “carinho sem ter fim”.
Talvez empolgado, o que canta, aquele que pediu à Tristeza que fosse até a amada e lhe dissesse de todo o seu amor, de repente parece esquecer toda a gentileza e se deixa levar por um certo arroubo emocional.
Se “Chega de Saudade” não atingisse os corações, como o faz, o tal arroubo não daria sentido à música.
Nos dois últimos versos, há uma inversão da pessoa com que se fala, que desde o início foi a Tristeza, que grafo como se fosse substantiva por ser dotada de certos poderes humanos, para ser a própria amada. E isso é tão imperceptível que não se nota o erro gramatical nesses versos: “Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim” e “Não quero mais esse negócio de você longe de mim...”.  Você, quem? Pela interlocução teria que ser a Tristeza, pois é com ela o diálogo. Mas isso não teria sentido e nem seria justo com os sentimentos de quem canta, mesmo que o faça errado gramaticalmente.
O que importa é que a canção diz o que quer dizer e todo mundo compreende. O que deixa saudade é que não se criam mais outras batidas e promessas e arroubos; o mundo parece estar do tamanho de uma boquinha de garrafa.

bY bAl