Aqui está o meu relato do incêndio que destruiu completamente o apartamento debaixo do meu, entremeado pelas história de vários moradores, contadas na emoção do momento. Os momentos de horror vivido pelos moradores merece ser tratado com respeito e prudência. Não se furtem de indicar os erros.
Era pouco mais do que onze horas da noite quando a campainha tocou e a Shirley se levantou para atender. Da sala ela perguntou quem era aquela hora da noite, mas não obteve resposta e nem teve importância; da cozinha uma fumaça preta de cheiro esquisito, lentamente ia tomando conta do apartamento. De repente o silêncio que parecia reinar dentro e fora, foi quebrado por gritos incompreensíveis e ela voltou para o quarto e abriu a janela. Do sexto andar seus olhos miraram diretamente nos olhos de uma vizinha do outro prédio que estava lá embaixo que gritou: desce que está pegando fogo! Acordou as nossas duas filhas dizendo: Vamos descer que tem alguma coisa pegando fogo! Deixem tudo, peguem a escada e não parem para nada! Antes de sair, imaginou que talvez precisasse de alguma proteção e pegou um edredron e seguiu as meninas deixando a porta aberta.
Enquanto as três desciam pela escada, envoltas por uma fumaça preta ainda pouco espessa, cruzaram com um morador que também descia; na descida a Shiley me ligou com uma voz chorosa dizendo: Bal, vem para cá que está pegando fogo! Eu não estava em casa, mas encontrava-me a muito próximo do condomínio e acelerei o mais que pude. Meu coração disparou e não pensei - ou não quis, não lembro – perguntar se elas estavam no apartamento ou se estavam descendo. Entrei no condomínio e vi um morador, um adolescente, do apartamento 501 logo abaixo do meu, gritando palavras ainda desconexas para mim, enquanto um fio de fumaça saia pela varanda. Logo em seguida encontrei a Shirley em prantos tendo ao lado a Ana Vitória e a Maria Luíza, verdadeiramente apavoradas. Ao lado, o marido daquela moradora que mandou a Shirley descer me disse que tinha tentado subir, mas a fumaça estava espessa, não se enxergava nada e não havia condições de se respirar. Normalmente ele ia para o seu sítio nas sextas-feiras, mas naquele dia preferiu ficar em Manaus para ir a um restaurante com a família, e estava entrando no condomínio no momento em que o jovem morador começou a gritar da varanda.
Antes de a Shirley ouvir a campainha, a moradora do apartamento 502 se dirigiu a cozinha para beber água quando viu a fumaça entrar pelas bordas da porta de serviço. Sem alternativa abriu a porta da sala, chamou o elevador social e desceu. Correu para a portaria e foi a primeira a ligar para os Bombeiros e pedir auxilio à portaria que muito pouco podia fazer.
Dentro do apartamento 501 a situação foi desesperadora desde o início. Por algum motivo o rapaz foi até a cozinha e viu a fumaça; chamou a mãe e tentaram apagar o incêndio utilizando o extintor existente no hall de serviço. Com a diminuição das chamas os dois entraram novamente no apartamento para acordar outro morador que continuava dormindo e orientaram-no a descer, o que ele fez um tanto cambaleante devido aos remédios. Foi com ele que as meninas e a Shirley cruzaram enquanto desciam. Por alguma razão, os dois entraram novamente no apartamento e quando tentaram sair o fogo já tinha se alastrado pela cozinha e o jeito foi se proteger na varanda. Na verdade os dois ficaram presos em uma arapuca arquitetônica: cada apartamento tem duas saídas, a social e a de serviço sendo que somente esta tem acesso a escada. Quando a moradora do 502 saiu pelo elevador social, naturalmente ela fechou a porta e minutos depois quando a mãe e o filho tentaram igualmente fugir pelo hall social, encontraram a porta fechada e, sem alternativa, chamaram o elevador que chegou pegando fogo.
A minha cunhada estava sozinha no apartamento 401, logo abaixo do 501, e ouviu gritos e também desceu pelo elevador social. Quatro pavimentos acima, um casal do apartamento 802 também ouviu os gritos e tentou acessar a escada, mas desistiu quando viu a fumaça minar pelas tomadas da parede e pelo interfone. Chamou o elevador social e mesmo envolto em fumaça preta, temerariamente desceu até o térreo. Foram os últimos a sair do prédio.
Os moradores do 702 ouviram os gritos e tentaram sair pela escada e viram que pelas tomadas da cozinha a fumaça minava violentamente; quando chegaram na porta da escada a fumaça estava densa demais e a escuridão tomava conta do local; voltaram para dentro e se refugiaram durante todo o incêndio dentro do banheiro da suíte. Os do apartamento ao lado viveram o seu drama quando perceberam que não podiam ir pela escada com uma senhora idosa com dificuldade de locomoção.
Em menos de quatro minutos os Bombeiros chegaram ao local trazendo consigo dois caminhões. Para mim e a primeira vista, a situação era grave, mas não era desesperadora até o momento em que tive a idéia de olhar a parte de trás do prédio; as chamas vomitavam pela janela da cozinha e um dos caminhões se deslocou para lá e imediatamente passou a jogar água de baixo para cima. Fiquei alarmado! Por sorte a janela da minha cozinha e do quarto de uma das minhas filhas estavam fechadas e as labaredas não incendiaram o meu apartamento.
No apartamento 501, a situação ficava cada vez mais dramática com o jovem morador gritando insistentemente por socorro. Poucos minutos depois a sua mãe passou a lhe fazer companhia na varanda e cortou a tela de proteção, aumentando o drama da situação. A fumaça agora claramente vomitava pela varanda deixando um pequeníssimo espaço para os dois, justamente na parede que dividia o seu apartamento do vizinho.
Os moradores dos apartamentos superiores que não conseguiram descer ficaram olhando, impotentes e desesperados, pela janela sem que pudessem fazer qualquer coisa e sem que ninguém pudesse lhes prestar qualquer auxílio.
Quando a mãe e o filho chegaram à varanda, chegou um terceiro caminhão do Corpo de Bombeiros trazendo uma plataforma de combate a incêndio, que todos chamam de Magirus. O imenso caminhão teve muita dificuldade para entrar pela estreita e baixa entrada social, enquanto uma multidão de moradores dos outros prédios do condomínio se desesperava gritando para que ele entrasse de qualquer jeito. A alternativa que se tinha, era a entrada de serviço, mais ampla, mas que estava fechada como sempre fica a partir das vinte horas. Além disso, um poço artesiano do próprio condomínio estava sendo perfurado nas proximidades e um caminhão impedia a circulação por uma das faixas, deixando livre uma pequena passagem que agora se sabe, permitiria a entrada do carro dos Bombeiros. Pessoalmente, fiquei com a impressão de que o motorista do pesado caminhão era pouco hábil e não atendia os apelos para dar ré e seguir em frente.
Assim que o carro entrou, todos queriam que ele invadisse o jardim e se posicionasse mais próximo do sinistro. O desespero da multidão era tanto que ninguém - ou quase ninguém – avaliou que se o pesado caminhão tivesse entrada por ali, talvez ele ficasse atolado e piorasse, em muito, a situação. O comando dos Bombeiros, sabiamente, preferiu posicionar o caminhão lateralmente e lentamente começou a esticar a escada. Mais uma vez, do meu ponto de vista, fiquei com a impressão de que o bombeiro que manuseava a escada não era tão hábil quanto o necessário, pois ela subia, voltava um pouco, girava para um lado, para o outro e isso - repito, no meu entender -demorou uma eternidade.
Enquanto o caminhão e a escada não entrevam e não alcançavam o quinto andar, o adolescente passou perigosamente por fora para o outro apartamento diante do olhar e dos gritos desesperados da multidão, que supunha que ele fosse se lançar. Alguém gritou para ele pegar uma toalha molhada e desse para sua mãe que não tentou segui-lo.
Enquanto a lenta escada subia na direção do 501, uma equipe dos Bombeiros conseguiu corajosamente alcançar o 402 e jogou uma corda para o jovem que estava no apartamento 502 imediatamente acima, que era da moradora que primeiro avisou sobre o incêndio. Demonstrando coragem, o adolescente se amarrou à corda se esticou por fora da varanda quando foi agarrado pelas penas por um bombeiro - que também estava arriscando a sua vida, pois estava de pé no parapeito, apesar de amarrado e seguro por seus companheiros – e trazido em segurança para o térreo pela escada do prédio, utilizando uma máscara de oxigênio. Foi uma cena de horror.
Apesar de a minha cunhada ter deixado o seu apartamento aberto - o 401, portanto ao lado de onde estavam os homens do Corpo de Bombeiros - eles não tiveram condições de entrar e repetir o resgate da moradora, que estava imediatamente acima. O perigo era evidente, ninguém poderia garantir a integridade estrutural da laje de piso diante de tanto fogo. A única alternativa era a escada “Magirus”.
Espremida no único canto que não tinha labaredas, a moradora manteve a calma enquanto os bombeiros molhavam-na com água lançada do térreo. Enfim a escada chegou à varanda e um bombeiro auxiliou a moradora a passar desta para aquela. Ao se apoiar e depois pisar no ferro do parapeito para passar para a escada, foi que ela teve as suas únicas queimaduras nas pontas dos dedos das mãos e dos pés.
Nitidamente abalada, lentamente a moradora desceu a escada e foi levada pelo SAMU para o pronto-socorro. Enquanto ela descia com a ajuda de um bombeiro, outro subiu com uma mangueira e enfrentou o fogo da varanda para dentro, chegando à cozinha e aos quartos do apartamento. Tudo havia sido destruído, exceto um dos quatro cômodos do apartamento de mais de 160 metros quadrados de área.
Com o fogo aparentemente sob controle, as minhas filhas pediram para que eu resgatasse o nosso gato, o Kako! Não havia como não supor o pior, mas pedi permissão aos Bombeiros e subi até o 601 com acompanhado de um deles. Eu queria ir até lá para ver os estragos e resgatar o Kako, mas achei temerário o fato de ter que pisar em uma laje submetida a altas temperaturas. De qualquer forma, nos subimos. Procurei pelo bichano em todos os cantos possíveis e não o encontrei. Como a Shirley deixara a porta aberta, eu imaginei que ele tivesse fugido pela escada e me deu uma angustia. De repente me deu um estalo de olhar para debaixo da minha cama e lá estava o Kako, absolutamente desesperado. Puxei a cama, mas ele fugiu; corri pelo apartamento atrás dele sem conseguir alcança-lo e sem conseguir manter os pés no chão de tão quente que estava. Enfim, agarrei-o depois de ter sido mordido e muito arranhado e trouxe-o para as minhas filhas que choraram com o seu gato antes branco, agora cinzento.
Muitos moradores aproveitaram a oportunidade para subir e ver o estado dos seus apartamentos. Os que ficaram presos pelo fogo puderam descer, exceto os moradores do último pavimento, que por motivos diferentes não o fizeram: os do apartamento 1201 não tinha como descer pela escada com uma senhora hipertensa e decidiram passar a noite por lá, sem água e gás; o japonês do 1201 foi o mais feliz de todos, pois não ouviu nada, não viu nada, dormiu a noite inteira e somente na manhã seguinte que algo diferente ocorrera quando tentou em vão pegar os elevadores e desceu por uma escada suja e fétida.
Logo depois e sem que ninguém esperasse, o fogo recomeçou violentamente no escritório do 501 e, sinceramente, não havia mais dúvidas de que o fogo se alastraria e o meu apartamento seria incendiado. A escada “Magirus” fora recolhida e os bombeiros subiram pela escada do prédio, envoltos em fumaças e fuligens. As labaredas tomavam conta de tudo; estalos se ouviam a todo minuto até que o fogo foi lentamente controlado pelos bombeiros, que usavam - diga-se de passagem – uma lanterna cedida por um morador do condomínio. A multidão se desesperou com os bombeiros e muitos colocaram em dúvida as suas ações.
Por volta das quatro horas da manhã de dois de julho, o incêndio estava realmente controlado, mas o coração ainda batia muito acima do que o normal. De repente eu estava sem apartamento e nos mudamos para o do meu irmão, no mesmo condomínio, que estava com uma hóspede francesa. No improviso de trazer colchões a Shirley encontrou pela escada do nosso prédio, uma empregada que mal fala português dizendo que não tinha onde ficar, pois a patroa não passara bem e fora removida para o pronto-socorro.
Onde dormem dez - onze com a hóspede - dormem doze e assim passamos a noite, pensando no recomeço e agradecendo à Deus.