quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

De carro até a Isla de Margarita: por cinqüenta centavos a mais...

Apesar de ser um dos maiores produtores de petróleo, a Venezuela não tem capacidade para refinar o seu ouro negro, tampouco tem condições de atender a sua própria demanda interna por diesel e gasolina. São normais as imensas filas nos postos de combustível que, via de regra, fecham a noite, o que não altera o gosto dos venezuelanos pelos motores V6 e V8, sabidamente beberrões. Até mesmo pequenos ônibus e caminhões são movidos por esses motores que, diga-se de passagem, produzem um som imponente, muito gostoso de ouvir.
Mas isso tudo eu só aprendi depois!
Parei para almoçar em Upata sentado de frente para um posto de combustível. Meu anjo da guarda é dos bons, porém conta demais comigo, apenas sinaliza, não fala. Como o Pajerão tinha mais de meio tanque, deixei para abastecer adiante na certeza (baré) de que teriam outros postos.
As cidades foram passando, passando, passando... uma atrás da outra e nada de posto, pelo menos no eixo da estrada. Empolgado com a pista sem buracos, mantinha o motor do Pajerão roncando a três mil rotações por minuto, condicionador de ar ligado, até que entrei num reserva indígena, sem saber que existia um negócio desses no meio da Venezuela.
O ponteiro de combustível foi baixando, baixando, baixando... e eu, então, me dei conta de como tinha sido imprudente. Senti-me o próprio Garcez, aquele piloto da Varig que pousou tranquilamente no meio da floresta amazônica com os tanques repletos de vento. Tal qual o piloto que avisou a tripulação para se preparar para um pouso forçado, eu mostrei à Shirley a situação do ponteiro, mais brochado do que aquilo de velho. Senhor da situação, pedi para não alarmar as meninas que tudo daria certo, mas não deu não!
Sem poder retornar, continuei absolutamente tenso na direção norte até que a luz amarela acendeu. Pane seca no meio do nada, ou melhor, pane seca no trecho mais perigoso de toda a viagem, qual seja, entre El Tigre e Cantaura. Eram quase dezoito horas e o sol se preparando para iluminar o outro lado do mundo, me deixando no escuro contemplando o nosso ocaso.
O outro carro que nos acompanhava era movido a gasolina e sem poder fazer nada, parou atrás. Houve uma rápida troca de tripulação com a Shirley seguindo com as meninas no outro carro e eu fiquei com a Tubinho e com a tia Joaquina, que vinham alegres no Siena. Olhei no mapa e pela quilometragem achei que ela iria andar uns cem quilômetros, cinqüenta em cada direção.
Agora a história também passa a ter duas direções a de quem ficou e a dos que foram.
A de quem ficou começou muito mal: fumei o ultimo cigarro, contemplando a paisagem! De um lado, um serrado lindo de morrer com serras ao longe; do outro, onde o sol de punha, um serrado lindo de morrer com serras ao longe. Não vi nada vivo, nem passarinhos.
A Joaquina, uma senhora de mais de setenta anos, fez sinal pedindo ajuda até que parou um caminhão. O motorista perguntou o que tinha ocorrido e eu disse, em espanhol, que havia ficado sem diesel. Diesel? O que é isso? Indagou o gentil homem. Meu Deus! Como é que se chama diesel em espanhol? Indaguei, eu. Ele sugeriu: gasoil? Eu topei. Pediu uma mangueira e eu disse “yo no tengo!”, pediu uma “botella” e eu disse que também não tinha, simplesmente, porque  não sabia o que era. Ele foi embora.
Em seguida parou outro e eu fui logo dizendo: “yo no tengo gasoil, nim maguera, nim botella”. Mas aquele motorista era dos bons além de poliglota: viu uma embalagem dessas de óleo de motor de carro, do outro lado da estrada e disse “botella”. Desconectou uma mangueira do seu tanque, encheu quatro vezes a tal “botella” e me deu vinte litros de “gasoil”. Quando ele foi re-conectar a mangueira, a rosca não pegou mais. Tentou várias vezes até que disse, “adelante, aqui es muy peligroso”. Dei um dinheiro para ele e fomos embora na escuridão da noite, depois que quase uma hora parados.
Voltei dando jogo de luz para todos os carros que passavam no sentido contrário, tentando identificar a Shirley sob péssima condição de visibilidade.
Os que foram também sofreram, inclusive do mesmo mal da luz da gasolina. Pouco antes de um posto, a luz da reserva acendeu e eles abasteceram. Mas lá não vendia “gasoil”. Seguiram as orientações do pessoal do posto até que chegaram numa casa que vendia combustível clandestinamente, dado que os postos fecham a noite.
Entraram na casa da moradora, chorando e pedindo ajuda. A Ana Vitória, minha filha mais velha, manteve a calma e conseguiu que lhe fosse dado vinte litros de diesel, envasados em embalagens “pet”. Aquelas pessoas foram muito gentis, tanto que inicialmente recusaram qualquer tipo de pagamento, mas depois cederam por insistência da Titole.
Retomaram o caminho de volta.
De nosso lado, ficamos o tempo todo chamando pelo rádio mas nada de atendimento. Continuei adiante, dando sinal para todo mundo, até que a Shirley passou... mas não me viu e nem respondeu aos chamados radiofônicos.
Consegui um lugar para retornar e segui no seu encalço, sempre chamando pelo rádio, até que ouvimos uma resposta. Paramos, levei as pets para o Pajerão, remontamos as tripulações e seguimos. No primeiro bar, parei para comprar cigarro e duas cervejas.
Achamos um hotel e dormimos, exaustos.
O pior de tudo é dizer que para encher o tanque do Pajerão com “gasoil” se gasta menos de dois bolivares, o que equivale a menos de cinqüenta centavos de real.

By bAl


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