terça-feira, 25 de janeiro de 2011

De carro até a Isla de Margarita: entre carimbos e fuzis

Sob vários aspectos, viajar de carro é uma aventura sujeita á chuvas e trovoadas no decorrer do percurso, portanto, quem se dispõe a isso sabe muito bem que os imprevistos fazem parte da viagem e são justamente eles que a tornam interessante. Não troco por nada colocar o meu carro na estrada.
Mas ir de carro até a Isla de Margarita é muito mais do que passar, digamos assim, por problemas atmosféricos; na verdade, é vencer a dúvida cruel e interminável que o Gobierno Revolucionário Bolivariano de Venezuela tem quanto a entrada de brasileiros em seu território. Essa dúvida, diga-se de passagem, há mais de uma década que persegue psicologicamente a Guarda Nacional, órgão responsável pela segurança política e militar de Hugo Chaves.
Os abusos são muitos e de todas as ordens. Não titubeio em afirmar que não existe brasileiro que tenha trafegado pela Venezuela que não tenha sido alvo de ameaças, de truculências e, fundamentalmente, de tentativas, consumadas ou não, de subornos.
As naturais e compreensíveis tratativas burocráticas para entrada no território venezuelano, se transformam em si na primeira aventura. E que baita aventura.
É certo que vários brasileiros querem entrar de qualquer jeito, o que faz do ingresso um jogo de paciência entre o interessado e ele mesmo, mas o trâmite burocrático leva qualquer cristão à exaustão. Em uma sala os passaportes são carimbados e os dados transcritos, em letras ininteligíveis para um livro: tudo é anotado, a viagem toda e em todo lugar existem livros e carimbos azuis e vermelhos. Simples burocracia que os militares sempre adoraram lá e cá e acolá.
Depois o carro precisa ser liberado, o que é, mais uma vez, bastante compreensível. Entendo normal que o proprietário esteja presente, afinal a quem cobrar em caso de acidentes e outros danos? Mas exigir que o proprietário seja o motorista ultrapassa o limite do bom senso. A burocracia é tão grande que se não existem leis oficiais, os aduaneiros concebem uma oportunamente, querendo, na verdade, propina. Inicialmente exigem, por exemplo, que seja apresentada uma autorização passada em cartório e com selo brasileiro, mas depois a conversa muda para um cartório venezuelano. Com a documentação verificada, por um fiscal que faz questão de ensinar que ele faz parte do gobierno, o viajante tem que conseguir o Permisso do carro, documento mais importante que o próprio passaporte.
Depois de duas horas, mais ou menos, o Permisso é liberado e será infinitamente exigido e carimbado durante a viagem. O tal papel é tão importante que deve ser devolvido na volta com um número par de carimbos no verso, ou seja, se na ida o viajante conquistar três carimbos, na volta ele deve rezar um rosário para consegui-los novamente. Não é fácil, mas não há com que se preocupar se um amigo tiver mais carimbos, o que vale é conseguir tantos na ida e o mesmo tanto na volta. Até torna a viagem menos monótona e com os quilômetros passando, até causa uma animação dentro do carro: é aqui... não é na outra...
Enfim, a estrada sem buracos e nem sempre bem sinalizada.
A Gran Saban é deslumbrante, linda e encantadora; lá tem a mão de Deus em momentos da mais sagrada inspiração.
Mas lá tem a mão de Hugo Chaves e sua Guarda Nacional Revolucionária Bolivariana de Venezuela, a qual é devotada toda honra e toda glória, sempre armada com seus revolveres e metralhadoras.
Dezenas de postos policiais comandados por aspirantes a soldados tem plenos poderes sobre qualquer um. Dependendo do humor ou do sol ou da fome ou de sei lá o quê, o comandante pode dar uma ordem de parar todo mundo para vistoriar o carro ou, simplesmente, ver o passaporte ou o tal permisso ou a carteira de vacinação ou tudo junto e misturado, se lhe convier.
A arrogância e a prepotência são quase que normais; eles não encaram ninguém, têm o olhar dissimulado dos corruptos.
Em outras vezes, tais quais os oportunistas, os soldados dão a entender que o motorista pare o carro e quando isso acontece, eles ordenam “adelante!” depois de analisar que não há motivo aparente para uma propina.
Na saída de El Tigre os sobreviventes passam pelo o ápice do pânico e do terror: a Guarda Nacional instalou vários contêineres sem janelas e com ar refrigerado, para onde são levados os brasileiros que são submetidos a um avassalador conjunto de ameaças que vão do retorno, da prisão, do pagamento de multas milionárias e etc... caso não seja dado uma propina que varia de três a cinco mil bolivares, cerca de mil reais. Na viagem que fiz, eu conheci cinco famílias que tinham passado por isso e a minha só não foi para o contêiner porque eu não deixei. No meu caso, tudo porque a data de nascimento na carteira de vacinação de um dos passageiros do outro carro, era a mesma da emissão do documento. Como a carteira foi emitida em 2007, o passageiro deveria ser uma criança com quase quatro anos apesar de o passaporte mostrar que ele tinha vinte e cinco anos.
Durante as tratativas deste problema, eu fiquei afastado até o momento que ele ameaçou a minha esposa, quando, então, literalmente botei o dedo na cara do soldado ordenando que fosse chamado o seu comandante para irmos para a Embaixada brasileira, que eu até hoje não sei se existe em El Tigre!
Um soldado frouxo e covarde se desnudou na minha frente; pegou trinta bolivares e devolveu os passaportes. Na saída pediu bombons Garoto e eu disse que em bom espanhol: para usted no tiene Garoto, no tiene bombon, no tiene nada... e pensei no tiene porra ninguma.
Por outro lado, há de ser louvada a preocupação da Guarda Nacional com a segurança dos viajantes brasileiros: corretamente eles exigem o uso do cinto de segurança, senão... Apesar de não ter nada haver com isso, eu achei estranho o fato deles não se preocuparem com os motoristas e passageiros venezuelanos que trafegam sem cinto, sem faróis, sem lanternas e, às vezes, sem porta, sem pára-brisas... num monte de carros velhos. Será que a  Guardia Nacional Revolucionária Bolivariana de Venezuela não gosta do seus patrícios?
Para entrar no ferry boat que vai à ilha, a burocracia venezuelana deixa qualquer outra com inveja. O boleto tem quatro partes da qual uma é do passageiro e as outras três, são destacadas por pessoas diferentes em um espaço de dez metros! Ou seja, anda-se um pouco e... clique, lá se foi uma parte; três metros depois outro clique e mais adiante o clique derradeiro. Quando se vai, as taxas são pagas por fora, mas quando se retorna os impostos já estão inclusos no valor. Por quê? A meu ver não há explicação minimamente razoável para tal divergência.
Por conta desses fatos, entendo que o Governo Brasileiro deve tentar solucionar esses impasses junto ao Governo Venezuelano para, das duas uma, ou deixar passar em paz ou fechar a fronteira de vez e apertar os venezuelanos que vão a Boa Vista, muitos deles contrabandistas de ouro.

4 comentários:

  1. É amigo, eu estive em Margarita também esse inicio de ano, e por coincidência o guarda de El Tigre, nos parou também. Só que ele parou o carro que ia na frente e quando viu mais dois carros parando ele resolveu só pedir chocolate Garoto. kkkkkkkk

    Silvia Moreira

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  2. é amigo, aqui na venezuela impera a lei do que fala mais alto. Infelizmente aqui polícia é tão corrupta quanto o governo e todo o resto

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  3. Impressionante a narrativa, primo. O governo chavista e a sua aura de arbitrariedades já tinham destituído a Venezuela como possível destino turístico nosso, mas ainda não tinha ouvido uma história contada de própria pele. Um abraço.

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  4. amigo, passei por tudo isso que vc descreveu. fui dia 3/01/2011. passei apuros tb na ilha. precisamos avisar os brasileitos do que acontece lá. falei com a policia federal na fronteira mas eles me disseram que nao podiam fazer nada. fui roubado pela policia nesse mesmo lugar em dois mil bolivares. entre el tigre e san mateo

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Obrigado pelos seus comentários! bAl