domingo, 21 de novembro de 2010

Chega de saudade!

Depois de 50 anos, a Bossa Nova continua viva, apaixonada e apaixonante, ainda deixando nos corações uma maravilhosa saudade, tingida por uma tal batida que até hoje poucos conseguem compreende-la com a devida clareza. Pouco importa, a arte não exige que a compreendamos, ela simplesmente espera que sejamos emocional ou comportamentalmente afetados diante ou distante dela.
A musica “Chega de Saudade” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes é um exemplo disso: é uma canção de amor que, indistintamente, foi e é e continuará sendo utilizada por todos os corações, não importando que o gênero da pessoa que canta, na letra original, seja masculino.
É de se ousar dizer que não existe brasileiro que não a conheça e que não saiba cantarolar pelos menos os seus versos iniciais. Basta um violão tocar os primeiros acordes que nos surge da alma e não da memória, os pedidos para que a Tristeza, a mensageira da canção, vá até o amor perdido e lhe diga que “sem [ele] não pode ser”. E como a dor da saudade é grande, a Tristeza, de antemão, está autorizada a clamar até aos céus, se for necessário.
Depois disso a Tristeza é uma ouvinte de desabafos sinceros, que ocorrem, diga-se de passagem, em apenas um momento de toda a canção. O que canta se despe de tudo e reconhece que a melancolia em que se encontra vem da ausência do amor perdido e por isso “não há paz” e “não há beleza” em seu viver. No fundo do poço da desilusão, reconhece, humilde e insistentemente, que aquilo tudo “não sai”, “não sai” e “não sai”.
Para ir da realidade à ilusão, Tom Jobim e Vinícius bastaram-se em um clássico acorde, que interrompe com o passado de tristeza para fazer nascer um universo de promessas apaixonadas. E tome promessas e acordes lindamente melodiosos.
Os versos que se seguem foram concebidos para reconquistar o grande amor. Usando uma lógica de exageros que só cabe nos corações apaixonados, duas comparações inesquecíveis dão o tom das promessas: a primeira, a dos peixinhos e beijinhos e a outra, dos braços e abraços. Como condiz à alegria do amor, ainda que este se encontre do campo das suposições, o que entrelaça tudo isso é um desejo ardente, delicadamente transformado na promessa de um “carinho sem ter fim”.
Talvez empolgado, o que canta, aquele que pediu à Tristeza que fosse até a amada e lhe dissesse de todo o seu amor, de repente parece esquecer toda a gentileza e se deixa levar por um certo arroubo emocional.
Se “Chega de Saudade” não atingisse os corações, como o faz, o tal arroubo não daria sentido à música.
Nos dois últimos versos, há uma inversão da pessoa com que se fala, que desde o início foi a Tristeza, que grafo como se fosse substantiva por ser dotada de certos poderes humanos, para ser a própria amada. E isso é tão imperceptível que não se nota o erro gramatical nesses versos: “Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim” e “Não quero mais esse negócio de você longe de mim...”.  Você, quem? Pela interlocução teria que ser a Tristeza, pois é com ela o diálogo. Mas isso não teria sentido e nem seria justo com os sentimentos de quem canta, mesmo que o faça errado gramaticalmente.
O que importa é que a canção diz o que quer dizer e todo mundo compreende. O que deixa saudade é que não se criam mais outras batidas e promessas e arroubos; o mundo parece estar do tamanho de uma boquinha de garrafa.

bY bAl

2 comentários:

  1. Parabéns, Escritor!!
    O seu Texto está maravilhosamente lindo!!
    Faz Jus à canção a qual se refere que,indiscutivelmente, é um clássico da MPB!
    Continue escrevendo...estou aguardando os próximos textos!!
    bjs no coração!!
    Perina

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  2. Uma das mais belas da Tom, se não a mais bela.Creio que tão cedo não vá surgir alguém com tanto talento na nossa música popular, apenas imitadores.
    Claudio Batista

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Obrigado pelos seus comentários! bAl